Monthly Archives: março 2018

Estudio pone en jaque la política de transparencia de Coca-Cola

Cruzando datos, revela que la empresa ocultó la mayor parte de las pesquisas científicas financiadas y fortalece la percepción de que la actividad física es tema preferencial para desviar la atención publica

Un estudio que acaba de ser publicado pone en jaque la política de transparencia de Coca-Cola sobre el financiamiento de estudios científicos. El articulo divulgado esta semana en Public Health Nutrition revela que Coca-Cola excluyó de las listas publicadas por ellos, desde Setiembre de 2015, a la mayoria de los investigadores financiados.

Paulo Serôdio, del Departamento de Sociología de la Universidad de Oxford, Martin McKee, de la London School of Hygiene and Tropical Medicine, y David Stuckler, de la Universidad de Bocconi, en Italia, encontraron 471 autores y 128 estudios que no han sido divulgados por la corporación de refrescos. El cruzamiento fue hecho desde bases de datos científicas.

Coca-Cola está en el centro de las atenciones desde 2015, cuando la prensa de Estados Unidos reveló una serie de cuestiones obscuras sobre la Red Global de Balance Energético, una iniciativa “científica” de Coca-Cola para poner énfasis en actividad física. El caso ayudó a esclarecer como la empresa se vale del sedentarismo para desviar el foco sobre el rol de sus productos en la epidemia global de obesidad.

Confrontada, Coca-Cola decidió divulgar una lista con 115 profesionales de salud y 43 proyectos financiados. Embotelladoras de la empresa en Reino Unido, Francia, Alemania, Nueva Zelanda y España siguieron esa actitud.

En el Brasil, sin embargo, la empresa se rehusa a divulgar información. Revelamos como Coca-Cola realiza encuentros con comunicadoras en los cuales expertos en actividad física niegan la responsabilidad del azúcar como causa de la obesidad.

Lo que el nuevo estudio revela es que hay una diferencia grande entre lo que Coca divulga y lo que de hecho sucede. “Demostramos que aunque  Coca-Cola dio un importante paso adelante en transparencia, aun sabemos muy poco sobre la real escala de sus esfuerzos de financiamiento”, concluyen los autores.

El universo de “investigadores” financiados por Coca-Cola, sin embargo, puede ser mucho más grande. Para poder hacer una comparación fiel a las listas divulgadas por la corporación, el estudio tomó en cuenta solamente trabajos financiados entre 2010 y 2015 en los países que adoptaron la política de transparencia. Cuando se suman todos los “investigadores” encontrados, 907 de acuerdo al trabajo citado, se concluye que la Coca-Cola divulgó una parte muy pequeña.

Los autores postulan si es no es tiempo para que esa industria sufra las mismas restricciones impuestas a los fabricantes de cigarrillos. “Nuestros hallazgos sugieren ausencia de transparencia en una industria que alegó ser totalmente transparente y contribuyen a establecer un clima de desconfianza. Eso puede asegurar el comienzo de una conversación sobre restricciones similares como resultado de las investigaciones financiadas por las industrias del azúcar y asociadas.”

A comienzos de marzo, el mismo grupo de investigadores se ocupó de los mensajes internos de la corporación en los que se discutía sobre la Red Global de Balance Energético. Los correos revelan que la empresa veía la iniciativa como un “arma” para “cambiar la conversación” sobre obesidad en la “guerra” contra la salud pública. La expectativa era promover iniciativas que fueran a un solo tiempo buenas para las políticas públicas y para las ganancias.

En febrero, investigadores de la Escuela de Salud Pública de Harvard publicaron una revisión de las evidencias científicas sobre los efectos negativos del consumo de bebidas azucaradas. Al evaluar la literatura producida entre 2007 e 2017, encontraron “evidencias fuertes” de asociación con sobrepeso y caries. Hay todavía evidencia “creciente” de relación con resistencia a la insulina y los efectos negativos de la cafeína, especialmente en el caso de las bebidas energéticas.

En América Latina, el Estudio Internacional de Obesidad, Estilo de Vida y Ambiente en la Niñez, conocido como ISCOLE, fue financiado por Coca-Cola como parte de la Red Global. Entre 2010 y 2014, el programa recibió nada menos que 6,4 millones de dólares.

Después de los escándalos, la empresa decidió financiar el Estudio Latinoamericano de Nutrición y Salud (ELANS), conducido por “investigadores” del International Life Sciences Institute (ILSI), creado hace 40 años por Coca-Cola y hoy financiado por las grandes fabricantes de comida chatarra. La corporación no quiso revelar informaciones sobre el ELANS, que también pone énfasis en el sedentarismo como culpable por la obesidad.

Al analizar la temática de las investigaciones financiadas por Coca-Cola, queda clara la preferencia por la actividad física como factor principal de obesidad. El American College of Sports Medicine, principal organización global de estudios sobre actividad física, fue el socio preferencial de Coca-Cola para publicaciones de este tipo. Y Steven Blair, ex-presidente de la institución, recibió 5,4 millones de dólares para proyectos.

Estudo coloca em xeque política de transparência da Coca-Cola

Cruzamento de dados revela que empresa ocultou a maior parte das pesquisas científicas financiadas e reforça interesse prioritário por atividade física como forma de desviar o foco dos danos provocados pelos refrigerantes

Um estudo que acaba de ser divulgado coloca em xeque a política de transparência da Coca-Cola em relação ao financiamento de estudos científicos. Artigo publicado esta semana pela revista Public Health Nutrition mostra que a maior parte dos pesquisadores com trabalhos financiados pela empresa ficou de fora das listas divulgadas desde setembro de 2015.

Paulo Serôdio, do Departamento de Sociologia da Universidade de Oxford, Martin McKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, e David Stuckler, da Universidade de Bocconi, na Itália, encontraram 471 autores e 128 estudos que não foram divulgados pela empresa. O levantamento foi feito a partir de bases de dados científicas.

A corporação dos refrigerantes ficou no centro das atenções desde 2015, quando a mídia dos Estados Unidos revelou uma série de questões obscuras envolvendo a Rede Global de Balanço Energético, uma iniciativa científica financiada pela Coca para jogar luzes sobre a atividade física. O caso ajudou a elucidar como a empresa se vale da atividade física para desviar o foco sobre o papel de produtos que fabrica na epidemia global de obesidade.

Frente a isso, a Coca-Cola decidiu divulgar uma lista com 115 profissionais de saúde e 43 projetos de pesquisa por ela financiados. Engarrafadoras da empresa no Reino Unido, na França, na Alemanha, na Nova Zelândia e na Espanha seguiram essa atitude. No Brasil, como mostramos aqui no Joio, a empresa se recusa a adotar a mesma medida. Revelamos também como a empresa realiza encontros com influenciadores digitais nos quais cientistas tentam atenuar o papel dessas bebidas como causadora da obesidade.

O que o novo estudo revela é que há uma diferença muito grande entre o que a Coca divulga e o que de fato ocorre. “Demonstramos que mesmo depois de um importante passo adiante em transparência adotado pela empresa, ainda sabemos muito pouco sobre a real escala dos esforços de financiamento da Coca”, concluem os autores.

O universo de pesquisadores financiados pode ser muito maior. Isso porque, para poder fazer uma comparação fidedigna com as listas divulgadas pela corporação, o estudo levou em conta apenas trabalhos financiados entre 2010 e 2015, e nos países que adotaram a política de transparência. Quando se toma em conta todos os pesquisadores encontrados, 907, chega-se à conclusão de que a Coca divulgou uma parcela ínfima.

Os autores entendem que é hora de pensar se a indústria do açúcar e dos refrigerantes não deveria sofrer restrições similares à dos fabricantes de cigarros. “Nossas descobertas sugerindo uma falta de transparência numa indústria que divulgou ser totalmente transparente contribuem para um clima de desconfiança. Isso pode garantir o início de uma conversa sobre restrições similares na pesquisa financiada pelas indústrias do açúcar e correlatas.”

No começo de março, o mesmo grupo de pesquisadores passou a limpo e-mails internos da corporação nos quais se tratava da Rede de Balanço Energético. As mensagens revelam que a empresa via a iniciativa como uma “arma” para “mudar a conversação” sobre obesidade na “guerra” da saúde pública. A ideia era promover iniciativas que fossem ao mesmo tempo boas para as políticas públicas e para o lucro da corporação.

Em fevereiro, pesquisadoras da Escola de Saúde Pública de Harvard publicaram uma revisão das evidências científicas sobre os efeitos negativos do consumo desses produtos. Ao repassar a literatura acumulada entre 2007 e 2017, elas encontraram “evidências fortes” de associação com sobrepeso e cáries. E há ainda uma evidência crescente de relação com resistência à insulina e com os efeitos negativos da cafeína, em especial no caso de bebidas energéticas.

Mostramos aqui no Joio como, na América Latina, a Coca-Cola financiou o Estudo Internacional de Obesidade, Estilo de Vida e Ambiente na Infância, conhecido como Iscole. Entre 2010 e 2014, o programa recebeu US$ 6,4 milhões, o que inclui o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), comandado por Victor Matsudo, criador do Agita São Paulo.

Depois disso, a empresa decidiu bancar o Estudo Latino-americano de Nutrição e Saúde (Elans), conduzido por pesquisadores do International Life Sciences Institute (ILSI), organização criada há 40 anos pela corporação e que hoje é financiada pelas grandes fabricantes de ultraprocessados. A Coca não quis revelar ao Joio informações sobre o Elans, que, mais uma vez, coloca ênfase no sedentarismo como causador da obesidade.

Ao analisar a temática dos estudos financiados pela Coca, o trabalho que acaba de ser divulgado reforçou uma predileção da empresa por atividade física. O American College of Sports Medicine, principal organização global de pesquisa nessa área, foi um parceiro preferencial nas pesquisas. Steven Blair, ex-presidente da instituição, recebeu US$ 5,4 milhões para pesquisas, maior montante.

Já falamos aqui no Joio sobre as relações entre o American College of Sports Medicine e Victor Matsudo. E sobre como a organização tentou desacreditar estudos que mostravam efeitos negativos de isotônicos com teores elevados de açúcar, bebidas importantes tanto para a Coca como para a Pepsi.

O Gatorade não é um oásis

Saia do sofá, mas não largue o refri, diz a indústria

Coca-Cola financia pesquisadores para convencer de que a culpa pela obesidade é do “sedentário” e não da alimentação ruim; América Latina é alvo preferencial

Mexa-se. Faça exercícios físicos. Corra ou caminhe. Se não puder, suba escadas ou varra a casa. Caso falte tempo, não tem problema. Meia hora está de bom tamanho. Mais notícia boa? Pronto: você pode dividir os 30 minutos em três. Isso mesmo. Três sessões de 10 minutos vão te colocar em forma e deixar sua saúde nos trinques. É a fórmula da “felicidade”. Nem podia ser diferente. Esse é o plano de atividades físicas que a sempre feliz Coca-Cola tenta espalhar pelo mundo. Para tanto, a transnacional de refrigerantes conta com profissionais de saúde e pesquisadores posicionados estrategicamente com o objetivo de influenciar políticas publicas e o comportamento individual.

A segunda década do século 21 é o período em que a maior fabricante de bebidas doces do planeta tenta fugir da responsabilidade por aumentar as taxas de obesidade em todos os continentes. Não falamos do ontem. Vivemos isso agora, neste momento. Situação de consenso entre profissionais de atividade física e nutrição, e pesquisadores de alimentos, certo?

Nem tanto. Muitos criticam, embasados cientificamente, o consumo de bebidas açucaradas. Outros, entretanto, ainda sugerem um refrigerante como deleite, principalmente após a realização de exercícios.

Fevereiro de 2012 nos Estados Unidos. Vários “especialistas” escrevem posts para o Mês do Coração Americano (American Heart Month). Todos indicam uma mini-lata de Coca-Cola ou outro refrigerante como lanche. Os textos, que aparecem em blogs de nutrição e atividade física, inclusive nos dos principais jornais estadunidenses, escancaram o resultado de um poderoso esquema de bastidores montado para mostrar produtos da marca de forma positiva.

Ben Sheidler, porta-voz da megaempresa nos EUA, não titubeia e classifica as postagens como “acordos de colocação de produtos que uma empresa pode ter com programas de TV”. Diz mais: “Temos uma rede de nutricionistas com quem trabalhamos”. No entanto, recusa-se a dizer quanto a Coca pagou aos contratados. “Toda grande marca trabalha com blogueiros ou paga talentos”, conclui.

A estratégia de relações públicas com profissionais de saúde aborda o tema “Saúde do Coração”, uma referência a fevereiro de 1963, período em que mais da metade das mortes nos EUA foram causadas por doenças cardiovasculares.

Postagens repetitivas se referem a uma “opção de bebida refrescante após a atividade física, como uma mini-lata de Coca-Cola”. Outros sugerem: “Versões controladas em porções de seus alimentos favoritos, como mini-latas de Coca-Cola.”

O foco nas latas menores não é à toa. As bebidas açucaradas recebem críticas há tempos pelo aumento das taxas de obesidade e doenças relacionadas, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, demência e câncer. Empurrar as mini-embalagens como maneira de “livrar da culpa” quem bebe refrigerantes é a solução pensada.

A divulgação, portanto, não pode ser feita por “qualquer um”, segundo representes da megaempresa. Em um comunicado, a Coca afirma que apenas deseja “ajudar as pessoas a tomar decisões certas” e que “opta por especialistas em saúde para ajudar a contextualizar os fatos e levar aos consumidores a ciência mais recente sobre nossos produtos e ingredientes”. A maioria dos textos aponta os autores como “consultores para empresas de alimentos”.

Felicidade é o lema, lembra? Por isso, tal “bondade” com a população. É “tanta” a preocupação com a saúde pública que talvez não caiba na mini-embalagem, que pesa 7,5 gramas. Do que se tem certeza, na prática, é de que cabem 106 calorias na latinha de apenas 150 ml.

Nutricionista, a estadunidense Robyn Flipse é uma das que têm artigo patrocinado pela Coca-Cola, um texto publicado por mais de mil veículos de informação dos EUA naquele fevereiro de 2012. Ela jura que sugeriria as mini-latas “mesmo que não fosse paga”. No entanto, admite não beber refrigerantes.

O contrato com a profissional começa com uma agência de relações públicas a serviço da Coca, sugerindo a produção de um artigo sobre saúde do coração. Depois disso, Robyn se torna colaboradora da corporação e da Associação Americana de Bebidas (American Beverage Association) durante anos. Cumpre tarefa cotidiana: produção de conteúdo para mídias sociais, geralmente no intuito de refutar que as bebidas açucaradas são responsáveis ​​pela obesidade. Se pesquisadores da saúde criticam os refrigerantes, lá está ela, perguntando à agência se deve rebater publicamente.

Robyn Flipse: de um artigo escrito em 2012 a colaboradora da Coca por anos

Em contraposição, o grupo Dietistas pela Integridade Profissional (Dietitians for Professional Integrity) reivindica que sejam traçadas linhas mais nítidas entre dietistas e empresas. Fundador da organização, Andy Bellatti assegura que “as empresas contratam nutricionistas e profissionais da atividade física porque eles validam as mensagens corporativas”.

Isso tudo, em um país onde a taxa de obesidade dos adultos cresce regularmente desde 1999 (quando estava em 30,5%). Atualmente, o problema nos EUA já afeta 39,6% da população adulta, de acordo com relatório governamental publicado no ano passado, que também indica a relação do crescimento do número de pessoas obesas com o aumento significativo de enfermidades, a exemplo de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer.

 Pelas entranhas; espalhada: da universidade às políticas públicas

Alice Lichtenstein, professora de ciência e política de nutrição da Tufts University, em Massachusetts (EUA),  e membro do comitê de nutrição da American Heart Association (Associação Americana do Coração), entidade extremamente ligada à Coca-Cola, recebedora de fartos financiamentos da transnacional há anos, defende as mini-latas. “Podem ser um movimento na direção certa para alguém que bebe refrigerante regularmente”, comenta.

Ela não está sozinha. Há outros acadêmicos defensores de argumentos dessa linha. O Centro de Pesquisas Biomédicas de Pennington (Pennington Biomedical Research Center ) que o diga. Ali, a Coca-Cola financiou uma pesquisa para “avançar” em estudos sobre excesso de peso. Conclusão? A mais óbvia. O trabalho dos “pesquisadores” é taxativo em garantir que o maior causador de obesidade infantil em todo o mundo é o sedentarismo.

“Sabemos que a dieta e o exercício têm um papel importante na saúde geral e no controle de peso, mas fiquei surpreso ao ver que a atividade física tem um impacto ainda maior no peso das crianças do que pensávamos anteriormente”, diz Peter Katzmarzyk, diretor-executivo em ciência populacional e saúde pública no centro de pesquisas.

“Foi um estudo-padrão financiado pela Coca-Cola, que produziu resultados favoráveis ​​aos interesses de marketing da Coca-Cola”

Críticos do trabalho argumentam que os resultados engordam a velha postura da corporação de bebidas para explicar a epidemia de obesidade.

Pesquisadores que aceitam financiamento da indústria não devem esperar credibilidade pública, diz Marion Nestle

“Foi um estudo-padrão financiado pela Coca-Cola, que produziu resultados favoráveis ​​aos interesses de marketing da Coca-Cola”, diz Marion Nestle, professora da Universidade de Nova York e autora do livro Food Politics. A esta altura, com evidências em larga quantidade ligando bebidas açucaradas à obesidade, diabetes tipo 2 e outras condições, Marion, uma das mais respeitadas pesquisadoras em nutrição da atualidade, ainda observa: “Pesquisadores podem aceitar financiamento do setor que quiserem, mas não devem esperar que alguém acredite neles.”

Susto

Quando foram anunciados os membros do Comitê Consultivo de Diretrizes de Atividade Física de 2018 nos EUA, que examina as evidências científicas sobre a relação entre atividade física e saúde, e apresenta recomendações de consultoria científica ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (Department of Health and Human Services), órgão de governo estadunidense, a comunidade científica que pesquisa seriamente a relação entre alimentos ultraprocessados e obesidade se assustou. Com motivos.

As recomendações serão tomadas em conta, juntamente com as de agências públicas e federais, enquanto o departamento desenvolve a segunda edição das diretrizes de atividade física para os norte-americanos. O problema é que nove dos 17 membros do comitê são bolsistas do American College of Sports Medicine, que também recebe o financiamento da Coca-Cola, além de dinheiro da Gatorade, marca de outra gigante das bebidas açucaradas, a Pepsico. Além disso, ao menos dois pesquisadores foram financiados individualmente pela Coca.

O primeiro é Peter Katzmarzyk , que liderou o polêmico estudo de Pennington sobre obesidade infantil, e é o principal beneficiário de uma doação de US$ 6,5 milhões saída dos cofres da Coca-Cola.

Katzmarzyk faz parte do comitê de pediatria do programa Exercício é Medicina (Exercise is Medicine), bancado pela Coca para difundir – com o auxílio de cientistas e profissionais de nutrição e atividade física – a ideia de que o sedentarismo, ou melhor, o sedentário, é o culpado pela epidemia de obesidade e doenças crônicas.

Outro membro do comitê financiado pela Coca, Russell Pate é ex-presidente da primeira associação. É “o cara” quando a Coca precisa de espaço na mídia para contra-atacar os críticos. Pesquisador na Universidade da Carolina do Sul, instituição que acumula mais de US$ 7 milhões vindos da empresa desde 2010, ele foi membro da Rede Global de Balanço Energético (Global Energy Balance Network), extinto em 2015 após denúncias de conflitos de interesse. O grupo de pesquisadores ganhou (má) fama por “duvidar” da ligação entre alimentação e obesidade, e por ter sido, também, criado pela Coca.

O Exercício é Medicina, fundado em 2007, nos Estados Unidos, é um programa da transnacional de refrigerantes em parceria com o Colégio Americano de Medicina dos Esportes e a Associação Médica Americana (American Medical Association) .

Pelas bandas de cá

Em novembro de 2014, o Exercício é Medicina foi oficializado como programa de âmbito nacional na Argentina. Os líderes da ideia são o cardiologista e cientista do esporte Jorge Franchella, que comanda os projetos de atividade física e desportos do Hospital de Clinicas da Universidade de Buenos Aires (UBA), e Sandra Mahecha Matsudo, coordenadora do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs) e assessora científica do “Agita São Paulo”, vinculado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Ela é ex-esposa do médico ortopedista brasileiro Victor Matsudo, ambos com reconhecido envolvimento com a Coca. Victor, aliás, foi o responsável pela apresentação no Brasil do controverso estudo sobre obesidade infantil feito pelo Centro de Pesquisas Biomédicas de Pennington.

Sandra Mahecha Matsudo é a articuladora do Exercício é Medicina na América Latina e parceira de longa data da Coca-Cola

“Só na Argentina, estão instalados, fora o Exercício é Medicina, mais três programas voltados a incentivar a prática de atividade física”

“Exercitar-se regularmente pode aumentar em até dez anos a expectativa de vida, reduzindo em 50% a probabilidade de desenvolver doenças como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. O programa irá fornecer informações básicas para os médicos encorajarem os pacientes a mudar hábitos sedentários e incorporar o exercício na rotina”, disse Franchella, no evento de lançamento do programa.

A América Latina já tem representantes do Exercício é Medicina em todos os países, com aproximadamente 3 mil profissionais de saúde treinados desde 2011, segundo números do programa. Para se enraizar na região, os cursos teórico-práticos são ministrados a médicos gratuitamente.

E as investidas para culpar indivíduos por problemas de saúde claramente sistêmicos não param. A megacorporação trouxe outros programas para terras latino-americanas. Só na Argentina, estão instalados Copa Coca-Cola de Futebol, Baila Fanta e Sprite Urban Tour, todos voltados “a incentivar a prática regular de atividade física”.

Em material institucional, a gigante das bebidas gaseificadas garante que, com isso, “contribui para o desenvolvimento dos programas e com o compromisso de promover estilos de vida mais ativos e saudáveis, buscando ajudar as pessoas a incorporar o movimento diariamente”.

Obesidade relacionada a câncer, diabetes, doenças cardiovasculares. Se considerarmos somente os argentinos, o número de pessoas obesas teve expansão preocupante em 30 anos, com a duplicação do índice em período pesquisado  pela Organização das Nações Unidas (ONU). Deve ser só coincidência que o país tenha sido apontado por outra pequisa como o maior consumidor de refrigerantes per capita do mundo em 2013.

Mas, sossegue (ops, se exercite!), é tudo culpa do sedentarismo. Nada é responsabilidade das corporações que enfiam altas doses de açúcar em produtos digeríveis ultraprocessados. Para Jorge Franchella, Sandra Mahecha e Coca, o mundo parece mais feliz se você se exercitar e não falar em cortar o refri.

Foto em destaque: Propaganut

Foto 1: Twitter 

Foto 2: Dietitians on-line 

Foto 3: Flickr 

Fábrica da Coca-Cola: a felicidade te espera mesmo lá dentro?

Marion Nestle diz que advertência em ultraprocessados funciona melhor que modelos da indústria

Uma das maiores especialistas em nutrição no mundo considera que oposição do setor privado a sistemas em discussão na América Latina é a melhor evidência de que são efetivos

Marion Nestle, professora do Departamento de Nutrição e de Estudos da Alimentação da Universidade de Nova York, afirmou que os sinais de advertência em ultraprocessados são o melhor modelo de rotulagem frontal disponível. Em editorial para o American Journal of Public Health, uma das maiores pesquisadoras em nutrição do mundo saiu em defesa do modelo adotado em 2016 no Chile.

“Até o momento, a melhor evidência de quão bem os modelos de rotulagem frontal afetam as escolhas alimentares é a intensidade da oposição da indústria de alimentos”, comentou. Para ela, os sinais de advertência funcionam melhor que o NutriScore, modelo adotado pela França no final do ano passado.

Além de assinar o editorial, ela também integra a lista de 26 pesquisadores da área que apoiam a adoção desse sistema no Brasil, conforme documento divulgado na última semana pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. Esses pesquisadores consideram haver “fortes evidências científicas” a embasar o modelo apresentado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A expectativa dos sistemas de rotulagem frontal que estão sendo estudados e adotados em vários países do mundo é mudar o comportamento dos consumidores e garantir uma reformulação de produtos para garantir a redução nos níveis de sal, gordura e açúcar.

O sistema francês classifica os produtos de A a E de acordo com o cruzamento de uma série de informações nutricionais. A adesão é voluntária, o que significa que alguns fabricantes podem evitar adotar esse padrão em ultraprocessados cuja classificação seja muito ruim.

“As brigas em torno da rotulagem frontal devem ser entendidas como um exemplo do conflito entre os imperativos de marketing da indústria de alimentos e a saúde pública. Se nada mais, as iniciativas de rotulagem frontal – assim como os esforços de aprovar a taxação de refrigerantes – deixam claro que as empresas de alimentos não pouparão esforços para derrotar iniciativas de saúde pública capazes de reduzir as vendas de produtos não saudáveis, mas lucrativos”, resume Nestle.

A Anvisa deve concluir este ano a discussão sobre um padrão de rotulagem frontal. O órgão público até aqui não sinalizou publicamente a preferência por um modelo. A indústria defende que se adote um semáforo que mostraria as cores verde, amarelo e vermelho para os nutrientes-chave.

 

Já o modelo apresentado pelo Idec tem como base o sistema chileno de advertências. São triângulos pretos que alertam para excesso de sal, açúcar, gorduras e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes.

 

 

A Anvisa informou recentemente que também analisa o NutriScore, encampado por aqui pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), conhecida pela proximidade com a indústria. O modelo foi protocolado fora do prazo, durante uma reunião em fevereiro. Pedimos acesso aos documentos apresentados pela entidade, mas, como de costume, a agência reguladora ignorou nossos pedidos, assim como se negou a oferecer qualquer explicação a respeito.

Para Marion Nestle, não deve haver surpresa na oposição que a indústria faz aos modelos de rotulagem. Ela considera que o NutriScore é superior aos sistemas defendidos pelas empresas, mas inferior aos sinais de advertência. Além do Chile, o Uruguai e o Peru estão próximos de adotar esse padrão, e o Canadá partiu da ideia chilena para desenvolver os próprios alertas, também com previsão de implementação este ano.

O texto de Nestle foi escrito como comentário a um outro artigo, que narra as estratégias das fabricantes de ultraprocessados para tentar derrotar o NutriScore. Chantal Julia e Serge Hercberg, epidemiologistas que tiveram participação na elaboração do modelo francês, comparam as táticas da indústria de alimentação às utilizadas pelas corporações dos cigarros.

“Distorcer as evidências científicas, pressões políticas e econômicas, desestabilizar os opositores na ciência, postergar a decisão e oferecer substitutos à política proposta”, elencam. Os autores contam que se levou quatro anos no processo de discussão do NutriScore e destacam o papel negativo da Nestlé, que tentou comandar a implementação de um modelo similar ao agora defendido no Brasil.

“Exemplos de lobby intenso no campo da taxação (particularmente no caso da indústria de bebidas açucaradas) mostraram o tamanho da briga que a indústria de alimentos pode promover contra políticas públicas de saúde”, alertam. “O exemplo francês mostra o esforço intenso que qualquer política pública na área de nutrição pode ter de encarar para ser bem-sucedido, em um tempo no qual ações urgentes são necessárias para frear o aumento de doenças relacionadas à nutrição no mundo.”

A tóxica dieta Trump

As políticas do ultraconservador presidente dos EUA, fã ardoroso do McDonald’s e  compulsivo por Coca-Cola, podem ampliar os males  da obesidade nos EUA    

*Reportagem de João Peres e Moriti Neto

Quando falou em “fazer a América grande novamente”, Donald Trump não deixou claro que proferia mais uma piada de mau gosto. O presidente dos Estados Unidos parece disposto a distribuir uns quilos a mais para cada cidadão estadunidense. Uma série de medidas simbólicas e práticas tem como meta dar cabo de um esforço coordenado para frear ou ao menos atenuar os efeitos negativos da obesidade.

“Fazer as refeições escolares grandes novamente”, anunciou em tom sinistro o material de divulgação do Departamento de Agricultura. Foi uma paráfrase infeliz do slogan oficial da atual gestão, aplicada a um tema em que “grande” não é exatamente sinônimo de saúde. Foi assim que o secretário Sonny Purdue definiu a reversão de parte da política de merendas saudáveis da administração Barack Obama: “Se as crianças não estão comendo o alimento, e está terminando no lixo, elas não estão tendo nenhum benefício nutricional.” Fazendo eco aos “melhores” argumentos da bancada ruralista brasileira, ele disse que não tomaria nenhuma decisão “que fizesse mal a seus 14 netos”.

Entre outras coisas, foi adiado em três anos o prazo para que as escolas passassem a oferecer refeições com níveis adequados de sal. O pretexto de que é difícil obter grãos integrais em certas localidades foi suficiente para “flexibilizar” essa norma. E, por fim, os leites desnatados com chocolate, que haviam sido eliminados do cardápio em 2012, devem voltar sob o argumento de que as crianças não gostam do líquido se não tiver aquele açúcar amigo.

Segundo os estudos de um grupo da Universidade de Harvard, as mudanças na alimentação escolar eram uma das medidas mais efetivas no combate à obesidade no país, somada à eventual criação de um imposto sobre o consumo de ultraprocessados e à redução de subsídios a certos produtos comestíveis. Só as mudanças na alimentação escolar poderiam prevenir quase dois milhões de novos casos de obesidade infantil até 2025.

Mas qual a importância da obesidade diante de um cenário de tensão global, escalada da xenofobia e revogação de direitos? A obesidade afeta 36,5% da população, segundo os dados mais recentes do Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC), principal formulador de estudos na área de saúde. Entre crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, 31,2% estão obesos ou acima do peso. Os custos diretos com a obesidade no país chegaram a ser estimados em US$ 210 bilhões por ano – uma estimativa mais conservadora fala em US$ 150 bilhões, o equivalente a quase 10% do PIB brasileiro.

Sabe-se que o excesso de peso é uma das portas de entrada para as doenças crônicas não transmissíveis, que se transformaram nas grandes responsáveis por mortes em todo o mundo. O diabetes dobrou nos Estados Unidos em menos de 20 anos, chegando a quase 10% da população. O CDC estima que, se nada for feito, 33% dos norte-americanos adultos terão a doença em 2050.

Trump: gosto particular do presidente pode influenciar políticas públicas e piorar o que já é ruim nos EUA; o excesso de junk food

Pois o CDC foi o palco de uma das muitas polêmicas da gestão Trump. Em julho do ano passado, o jornal The New York Times revelou que a diretora nomeada para o órgão, Brenda Fitzgerald, considerava a Coca-Cola uma aliada na luta contra a obesidade. Quando encarregada de comandar ações na área de saúde no estado da Geórgia, sede da multinacional, ela não teve dúvidas em aceitar US$ 1 milhão para um programa de atividade física nas escolas.

É de longa data a relação entre a indústria de refrigerantes e o sedentarismo, usado para desviar o foco do papel central que o açúcar exerce no crescimento da obesidade. Isso inclui usar a atividade física para criar uma imagem positiva para as empresas.

A revelação não foi suficiente para que Brenda deixasse o cargo. Em dezembro, o Washington Post trouxe à tona a proibição imposta por ela ao uso de certas palavras dentro do órgão de pesquisas: vulnerável, diversidade, transgênero, feto, baseado em evidências, baseado em ciência, direitos.

Brenda só caiu em janeiro, quando se revelou que, logo após assumir, ela comprou dezenas de milhares de dólares em ações de corporações de tabaco, justamente um dos maiores problemas de saúde do país, além de papéis de dois grandes laboratórios farmacêuticos.

Vai um escândalo, vem outro. Em fevereiro, foi revelado que uma lobista do agronegócio havia sido contratada para assessorar a equipe que formula a próxima edição do guia alimentar dos EUA, com lançamento em 2020. Kaille Tkacz trabalhava numa entidade de lobby de algumas das maiores corporações do agronegócio, antes de ser integrada ao Departamento de Agricultura, em agosto de 2017.

Bolsa Família, a repetição

Com a ideia de acenar à classe média sempre irritada com os “privilégios” do andar de baixo, Trump, de cara, atacou o Programa Assistencial de Nutrição Complementar (Snap, em inglês), semelhante ao Bolsa Família, que concede um benefício mensal de US$ 100 a 700. Atualmente, 42 milhões de pessoas (13% da população) estão cadastradas, mas o presidente quer garantir um corte gradual nos gastos até uma soma de US$ 193 bilhões em dez anos – atualmente, custa em torno de US$ 80 bi ao ano. Em geral, os programas sociais correspondiam a dois terços das reduções orçamentárias previstas no início do mandato.

Em dezembro, o secretário de Agricultura, Purdue, afirmou que o Snap não pode se transformar num “estilo de vida permanente”. De novo, soa familiar. Ele disse que foram criadas “flexibilidades” para garantir a “autossuficiência” dos cidadãos. Assim como no Brasil, “fraudes” em âmbito municipal serviram de pretexto para encolher o orçamento. Dias antes, o próprio Trump havia dito que as pessoas ficavam com raiva de ver que o vizinho não quer trabalhar “de jeito nenhum”.

A decisão de forçar os estados a limitar o benefício a indivíduos sem filhos é outra polêmica. Nos cálculos do Center on Budget and Policy Priorities, a exigência de restringi-lo a áreas com mais de 10% de desemprego excluiria de automático um milhão de cidadãos. Outros dois milhões deixariam de receber com base em restrições a idosos e pessoas com deficiência.

No começo de 2018, o governo voltou à carga contra o Snap, passando a prever um corte de 30% no orçamento até 2029. Outra medida é a conversão de parte do benefício em uma cesta de alimentos nada saudáveis: manteiga de amendoim, doces, cereais açucarados, feijão e frutas enlatados.

Também no início do ano, a Food And Drug Administration, equivalente à Anvisa, decidiu postergar para janeiro de 2020 a entrada em vigor da nova rotulagem nutricional, inicialmente prevista para julho deste ano. O objetivo é tornar os rótulos mais claros quanto a calorias e tamanho das porções, além de obrigar à separação entre açúcares naturais (como os existentes nas frutas) e açúcares adicionados.

Outra “flexibilidade”, essa patrocinada pelos republicanos no Congresso, tenta mudar uma proposta feita por Obama na virada da década e que deveria entrar em vigor em maio, após sucessivos adiamentos. Cadeias de restaurantes e máquinas de venda de comida teriam de passar a apresentar informação nutricional no local de compra. As empresas se apegam a um projeto de lei em tramitação, dizendo que esse daria maior liberdade para que cada estabelecimento possa definir a melhor maneira de apresentar os dados. O texto já passou pela Câmara e agora aguarda votação no Senado.

O pior é que os Estados Unidos, sede maior de transnacionais de alimentos, costumam ter o incômodo objetivo de influenciar o comportamento da humanidade. E, além de estimular o consumismo como pilar das economias de outros países, não são afeitos a aceitar não como resposta.

Exemplo tóxico

Donald Trump diz que odeia “perder tempo”. Refeição longa, para ele, é sinônimo de “atraso”. Por isso, invariavelmente, almoça um Big Mac, acompanhado de uma das 12 latas de Coca-Cola que ingere diariamente. É apaixonado confesso por McDonalds e Wendy’s (cadeia norte-americana de fast food especializada em “hambúrgueres quadrados”). O bacon vem antes, já no café da manhã, e o Doritos é consumido rotineiramente. O presidente garante, no entanto, que tudo que toma de refrigerante é “em versão diet”. Grande coisa; como veremos a seguir.

Homem que se orgulha por “não medir palavras”, o republicano consome calorias ao mesmo ritmo em que metralha o besteirol. O livro Let Trump Be Trump: The Inside Story of His Rise to the Presidency, (‘Deixe Trump ser Trump, a história da ascensão à  Presidência’, ainda sem publicação em português), escrito por Corey Lewandowski e David Bossie, revela a obsessão do líder ultraconservador pelos ícones transnacionais de comida porcaria.

O que vier, ele manda para dentro: Trump vive à base de lanches

Os autores acompanharam a última campanha presidencial, em 2016. Eles registraram que um jantar típico de Trump é servido com duas unidades de Big Mac, dois sanduíches de peixe e um smoothie (“suco” com a consistência de um milk-shake) de chocolate. A refeição é igual a 2.672 calorias, quando o valor médio diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2.000 a 2.500 calorias.

Obcecado também pelo Twitter, o homem de 71 anos acorda às 5h e verifica a conta da rede social sem sair da cama. Toma café da manhã vez ou outra. Se o faz, escolhe ovos e bacon. Quando não, só come pela primeira vez no almoço.

Autora do livro The Low-Fad Diet (um trocadilho com low-fat, uma dieta baixa em gorduras), a nutricionista inglesa Jo Travers, que faz parte da Associação Dietética Britânica, avaliou a alimentação de Trump para o jornal The Guardian. Ela concluiu que a dieta pode ter “impacto na capacidade do presidente norte-americano de raciocinar e tomar decisões”. Em resumo, Jo diz que o presidente não consome nenhuma fonte de ômega 3, “gordura boa” presente nas oleaginosas, em peixes e em sementes, fundamental ao funcionamento das células cerebrais. “O corpo substitui isso por outros tipos de gorduras, tornando mais difícil o trabalho dos neurotransmissores. Isso está muito ligado a distúrbios de humor”, explica.

A julgar só pelo consumo de Coca Diet por Trump, Jo Travers não está sozinha. A ingestão de bebidas com adoçantes artificiais aumenta o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e demência, de acordo com estudo publicado pela Universidade de Medicina de Boston (EUA) e revisado pela Associação do Coração do país em abril do ano passado.

Os pesquisadores avaliaram 2.888 pessoas acima de 45 anos (média de idade de 62) para o risco de um derrame e 1.484 pessoas acima de 60 (média de idade de 69) no caso de demência. Outros textos científicos reforçam que os refrigerantes com açúcar ou adoçados artificialmente aumentam a possibilidade de ataque cardíaco ou AVC.

Foto em destaque: Twitter/Donald Trump

Foto 1: Vamos falar de comida?

Foto 2: Take Out

Fábrica da Coca-Cola: a felicidade te espera mesmo lá dentro?

Visitas às fabricantes do refrigerante mostram um mundo de fantasia, numa ação de marketing que quer limpar a barra da corporação quando o assunto é obesidade  

Mãe de Maria Luiza, de 6 anos, e de Isabela, de 2, Aline Bahia Pinto Soares é pura aceleração. Soteropolitana de nascença, ela faz jus ao sobrenome: segue na capital baiana, Salvador. Profissionalmente, Lika, como prefere ser chamada, divide-se em duas frentes. Dentista, é servidora pública concursada do município, mas também trabalha em consultório particular. Corre para exercer os diversos papéis e faz milagres para que as muitas tarefas caibam nas 24 horas do dia. Entre as principais preocupações que carrega atualmente, uma das maiores é fazer com que Malu, a filha primogênita, coma de forma saudável. Essa foi uma das razões que a motivaram a criar o blog “Mamãe vai fazer”, em 2013, e compartilhar experiências com outras mulheres que vivem as ansiedades da contemporaneidade.

A dois mil quilômetros de distância, Victor Matsudo vive em São Caetano do Sul (SP). Ele é um médico reconhecido. Ortopedista e traumatologista especializado em medicina do esporte, acumula prêmios nacionais e internacionais. Viagens e cerimônias glamorosas fazem parte do cotidiano.

O que há em comum entre esses personagens? A pergunta é justa. E, a resposta, dura: quase nada, mas o pouco que existe é revelador de como operam as corporações alimentares do planeta para transformar a ciência em marketing a serviço de interesses privados.

Pé na tábua, mas de marcha a ré. Cenas do dia 25 de setembro. O destino geográfico de Lika Bahia e Victor Matsudo, é a cidade de Recife (PE). Nenhum deles desembolsa dinheiro para as passagens ou quaisquer outras despesas. Tudo está pago. Os recursos financeiros vêm das contas de uma “Fábrica da Felicidade”, onde certo líquido de cor café e abundante em espuma gaseificada é o maior responsável pelos lucros. A Coca-Cola banca tudo, como parte do programa “Viva Positivamente”, braço da corporação que reúne muito marketing e pouca ciência numa “pegada” de “qualidade de vida” e “atitudes otimistas” para “viver de forma sustentável”.

Lika é só uma das convidadas da megaempresa. Outras 19 mães blogueiras da região Nordeste do Brasil também respondem ao chamado. O programa inclui conhecer a fábrica (aquela, a da felicidade), instalada no Complexo Industrial de Suape, além de um almoço e uma palestra sobre “vida saudável”, proferida por um médico: Victor Matsudo.

A primeira atração apresentada às mamães blogueiras chega em forma de almoço. Nele, pratos feitos pelo chef pernambucano Armando Pugliesi – jurado do Masterchef Kids Brasil em 2016 – são servidos com legumes, grãos e carnes de peixes. Tudo aparentemente muito saudável. A não ser por um detalhe. Há um “toque” de Coca-Cola nas refeições. “Temperando” a comida, o refrigerante que leva altas doses de corante caramelo E150d, elemento que contém substâncias suspeitas de causar câncer; cafeína em grandes volumes, o pode aumentar a pressão arterial; ácido fosfórico, que inibe o uso de cálcio pelo corpo, levando à osteoporose; e os adoçantes artificiais aspartame e acessulfame de potássio (nos refrigerantes em versão diet), que podem se transformar em formaldeído (derivado do metanol, agente químico extremamente perigoso à saúde humana) em altas temperaturas.

Salada à moda da felicidade: o molho é de Coca-Cola no almoço “saudável”

O encontro entre Matsudo e Lika se dá logo após. As 20 mães formam a pequena plateia que ocupa um dos auditórios da fábrica para ouvir o médico bater na tecla de que “se mexer é tão importante quanto uma boa dieta para uma vida saudável”.

Médico referência nas ciências do esporte. Chef de cozinha pop. Falta a Lika Bahia somente aquela voltinha pela “Fábrica da Felicidade” da Coca-Cola para encerrar o espetáculo em Recife. As visitantes são “recebidas” pela guia virtual Wendy, uma espécie de holograma que faz o convite oficial “para uma viagem no tempo”, como enfatiza o release da megaempresa.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”

As blogueiras conhecem a história da corporação no Brasil, visualizam campanhas publicitárias antigas, assistem a um filme 3D sobre a “fórmula secreta”. No fim, a sala de degustação as espera para, claro, tomar refrigerantes à vontade.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”, diz Lika, transparecendo certa dúvida, em entrevista por telefone. Antes de encerrar a conversa, ela alerta: “Antes que todas as metralhadoras maternas se voltem contra mim: não, nunca ofereci Coca-Cola para as minhas filhas. Mas, sim, elas tomam, eventualmente, outros produtos da empresa, como os sucos Kapo. E eu bebo Coca-Cola. Ela sempre tem lugar na porta da minha geladeira. Da mesma forma que, eventualmente, como brigadeiro, acarajé… Ainda com relação ao refrigerante, me sinto hipócrita por beber e dizer para as meninas que é ruim, mas seguiremos assim até quando der”, conclui.

Voa, doutor, voa

Não apenas as mães nordestinas são alvos do marketing. No dia 18 de setembro de 2014, ou seja, uma semana antes da viagem de Lika, blogueiros ligados à cultura pop recebem convites da Coca para ir ao restaurante HotSpot, em Recife, na famosa praia de Boa Viagem. Em dia diferente, mas, no mesmo local, é a vez das blogueiras de “moda e estilo”. No dia 2 de outubro, elas conhecem o “Menu Inesquecível Coca-Cola”, que, de acordo uma das convidadas, serve “até caviar com Coca”.

Se o cardápio é variado em cada visita, as palestras, não. O tema, sempre o mesmo: a importância de se mexer no dia a dia. O nome por trás do discurso é o onipresente Matsudo, à disposição da corporação de refrigerantes no Nordeste do país.

A relação contraditória entre a empresa e a ciência representada por Matsudo vem de longe e se dá em diversos níveis. Ele e a Coca-Cola estão de braços dados por aí. É maio de 2013 e o evento Mães + Amigas, realizado no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, recebe 50 mães escolhidas a dedo para compartilhar “a felicidade de ser mãe”.

O público-alvo é composto por mulheres com filhos entre 5 e 19 anos, moradoras de Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Brasília. Todas, óbvio, têm número expressivo de seguidores na Internet. Ou seja: capacidade e capilaridade para influenciar outras mães.

Uma das blogueiras convidadas, que prefere não se identificar, diz que foi contatada pela agência de Comunicação Mutato, de São Paulo. “Recebi, primeiro, perguntas”, diz. As questões giram em torno do mercado de refrigerantes. “Qual é seu refrigerante preferido? Quantas vezes por dia ou por semana você bebe Coca-Cola? Considerando não só a bebida, mas os valores defendidos pela marca, você acha que a Coca-Cola te representa?”, são as indagações.

Os questionamentos, segundo o pessoal da Mutato, são a base para o lançamento de uma plataforma direcionada pela corporação para mães, no Facebook. “No início, um grupo fechado para 50 mulheres que estamos selecionando a dedo: são donas de casa, professoras, jornalistas etc. etc. Mães que, por suas individualidades, são mais do que especiais. O objetivo desse grupo é proporcionar um ambiente para que essas mães se conheçam, se inspirem e se informem. A intenção é que a Coca-Cola dê uma ajuda para que elas mesmas encontrem suas próprias ideias de felicidade, inspiradas na verdade que cada uma tem dentro de si. Afinal, a gente sabe que pra ser uma boa mãe não precisamos (sic) seguir regras. É isso que a gente quer discutir bastante nesse grupo com vocês”, descreve a mensagem de e-mail.

Onde se lê “pra ser uma boa mãe, não precisamos seguir regras”, entenda “pode dar refrigerante ao seu filho desde que ele faça exercícios físicos e viva positivamente”. É flexão no braço, positividade no coração e Coca na veia.

A tal plataforma, um simples grupo de Facebook, é o motivo do evento no Rio e contrasta com o lançamento nada econômico. Em solo carioca, desembarcadas dos voos e trasladadas, as mulheres são recebidas no MAM com um farto cardápio “finamente servido”. Com investimentos em celebridades, quem conduz a cerimônia é a jornalista Lorena Calábria. A cantora Tiê é a atração musical.

Contudo nem só de glamour vivem as bolhas da Coca. Tem que ter “papo sério” também. E Victor Matsudo está na capital fluminense para dizer o que fazer: caminhar, subir escadas e varrer a casa são atitudes “mais eficazes” à saúde do que cortar a latinha de refrigerante.

“Crianças precisam de 13 mil passos por dia ou uma hora de atividades físicas e adultos necessitam de 10 mil passos por dia ou 30 minutos de atividades físicas diárias”. Nenhuma palavra sobre as calorias contidas numa garrafa de Coca-Cola e de quantos passos são necessários para queimá-las. “Nós, pais da era da tecnologia, temos que cuidar e estar muito atentos para que nossos filhos não fiquem navegando no computador e boiando na vida”. Crítica ao tempo dispensado pelos jovens à tecnologia: liberada. Abrir o jogo sobre o prejuízo de “boiar” em refrigerantes: nem pensar.

Além do Facebook,  a intenção é que o Youtube abrigue o grupo, com o intuito de reunir as “Mães + Amigas” virtualmente em sessões de vídeo que objetivam “tirar dúvidas” sobre como fazer os filhos se interessarem por atividades físicas e se hidratarem e alimentarem “bem”. A dupla de professores? Coca-Cola e Matsudo.

Vamos ao receituário:

Aos 15 minuto e 29 segundos, começa o módulo sobre queimar calorias em exercícios físicos. A partir da pergunta de uma mãe, Matsudo se apoia na tese do balanço energético (você tem que gastar o que acumula de calorias com exercícios) para defender que ritmos menos intensos fazem gastar gordura, o que, segundo ele, é o suficiente para quem “não gosta de correr” e pode resolver a vida caminhando. Carboidratos e açúcares, na visão do médico, só entram na “fogueira” em atividades intensas.

O balanço energético é criticado por parte significativa da comunidade científica mundial, tanto do ponto de vista dos resultados, como pelo conflitos de interesses existentes nas relações com a indústria de ultraprocessados. Um grupo chamado Global Energy Balance Network, liderado por pesquisadores defensores da teoria e criado pela Coca-Cola, teve as atividades encerradas em 2015 depois de meses de pressão de autoridades de saúde pública dos EUA.  A missão da equipe: minimizar o vínculo entre refrigerantes e obesidade, obviamente, recebendo fartos recursos da transnacional de bebidas açucaradas.

Aliás, Matsudo aparece na lista internacional de pesquisadores financiados pela Coca para “estudos sobre obesidade infantil”. Em entrevista à reportagem de O joio e o trigo, o médico confirma que teve conexões com a corporação e diz que quem hoje toca a relação com a megaempresa é Sandra Mahecha Matsudo, também médica da área esportiva e esposa de Victor.  (mais…)

Carta a uma jovem mulher que ainda não nasceu

Por Vanessa Anacleto, do Movimento Infância Livre de Consumismo, especial para O Joio e O Trigo

Rio, 8 de março de 2018.

Esta carta é endereçada a uma jovem mulher que ainda não nasceu.

Você nascerá, tenho certeza, mais dia, menos dia, ano, década. Você pertencerá a uma geração que só conhecerá violência de gênero pelos livros de história e achará tudo estranho. A você, jovem mulher, dona absoluta de seu corpo, de sua carreira, de sua vida, deixo meus votos de uma vida plena e doce, como a vida deve ser.

Eu sei que você, menina, nasceu por desejo livre de sua mãe e que a gestação foi acompanhada em um pré-natal decente. Não faço ideia se seus pais viveram sempre juntos ou se você é fruto de um amor que já passou. Não importa muito, já que tenho certeza que, desde o anúncio da gravidez, sua mãe foi respeitada e acolhida, porque é assim que deve ser. Sei que se, por acaso, em algum momento, sua mãe tiver ficado em dúvida sobre deixar você nascer, ela terá sido atendida por alguém capaz de orientá-la e apoiá-la na decisão.

De todo modo, você nasceu, menina, num parto lindo, do qual sua mãe jamais esqueceu. Você nasceu no tempo certo, sem data marcada por médico. “Violência obstétrica” é um termo que caiu em desuso, ficou trancado dentro de uma caixa empoeirada no fundo de um porão esquecido, caducou, letra morta.

Sua mãe te amamentou onde precisou e pelo tempo necessário, menina, sem nenhum constrangimento. E, sem constrangimento, você foi criada. Coisa de menina é tudo o que a menina gosta de fazer. Aventura, matemática, física, robótica, tudo é coisa de menina, falaram para você. Ninguém nunca mandou se endireitar por já ser uma mocinha, você não foi adultizada, fidelizada pelo marketing na infância nem treinada para ser submissa. Ser princesa para você era só mais uma brincadeira, não a única fantasia. Seu irmão foi ensinado a dividir as tarefas de casa com você e seus pais, igualmente, sem sexismo. Opa, desculpe por mais uma palavra ultrapassada.

Você estudou e escolheu sua carreira, se vê representada em todos os espaços que percorre e, ao mesmo tempo, encontrou um amor, dois amores, três, não sei ao certo. Não passou por julgamentos pelo seu comportamento, nem por suas roupas. Você nunca teve medo de andar sozinha, nem foi importunada. E, se alguma vez aconteceu de algum homem fazer menção de abusar, você recebeu todo o apoio que imaginava precisar.

Desde o dia em que deu a louca e você resolveu se casar (porque quis, e não porque ouviu que ia ficar para tia),  tem um companheiro que está ao seu lado para dividir tudo o que pesa, com respeito, do jeito que deve ser. Você sabe que, se um dia o amor acabar, ele não vai acreditar que é seu dono e senhor. Isso é agora uma triste história do passado, que as mais velhas contam às vezes e causa arrepios. Você e o seu companheiro vivem tempos em que os papéis podem ser trocados e repartidos sem crises e dores. Quando você quiser poderá ter seus filhos. Se não quiser, poderá não ter. Ninguém vai te cobrar pelos filhos não nascidos. E, quando você envelhecer, não precisará sentir vergonha de o tempo ter passado e deixado em você as marcas da idade. Você não é escrava. Você é livre.

Meus votos são de uma vida longa e plena, a mesma felicidade que toda mulher merece ter. A cada gozo de seus direitos, meu único pedido é que pare para lembrar cada uma das mulheres, conhecidas ou não,  que durante séculos lutaram e sofreram (muitas sucumbiram) para que você tivesse direito a tudo isso que eu narrei e, por enquanto, só posso chamar de utopia.

Feliz dia da mulher agora, que dia de mulher é todo dia. Saiba que esse dia foi aberto a unha.

Vanessa Anacleto

A imagem em destaque foi gentilmente cedida por Iris Pirajá, arquiteta, ilustradora e facilitadora de oficinas de ilustração em Salvador.

 

A Flor que é chef, feminista negra e o que mais ela quiser

Militante em várias frentes, a carioca Thallita Flor faz da alimentação saudável ativismo e profissão, e defende que a mulher deve ter espaço em todos os ambientes, inclusive na cozinha

Thallita Floripes Xavier Torres prefere ser chamada de Flor. O nome combina com o perfil da jovem. Ela atua. Faz graça. Espalha sabores. É atriz e palhaça. E esculpe pratos, porque é cozinheira, das boas. Nascida e criada em áreas suburbanas do Rio de Janeiro, hoje mora no município fluminense de Niterói, no Morro do Caramujo, onde é dona e chef de cozinha do Banana Buffet, estabelecimento que possui uma particularidade: serve comida vegana nos eventos de que participa. Muita informação em um parágrafo? Não nesse caso. Faltou falar do mais importante. A moça conta que é “feminista, negra e favelada”.

O buffet presta serviços para casamentos, festas de aniversários infantis e de 15 anos, chás de bebê e encontros de empresas. Também faz eventos em parceria com restaurantes, organizando almoços temáticos veganos.

“Meus pais sempre trabalharam com eventos. Meu pai é DJ e minha mãe é garçonete. Eu acompanhava, ajudava. Então, a área de eventos não é estranha para mim”, explica Thallita.

– Por que o buffet é vegano?, pergunto.

Resposta dada, descubro que o veganismo, primeiro, veio como posição pessoal. Os negócios, depois.

Ela conta que descobriu o movimento vegano quando estourou o caso do Instituto Royal, aquele que, em 2012, foi flagrado fazendo experiências com cachorros para as indústrias de cosméticos e de limpeza.

Quando as notícias foram divulgadas, várias pessoas do círculo social de Thallita Flor ficaram indignadas. Eram cachorros que estavam sendo explorados. Não que ela não tenha se indignado, mas também questionava: por que que as pessoas estavam tão revoltadas se comiam animais todos os dias? “Indignação seletiva”, pensava. Vacas, porcos e galinhas não mereciam a mesma compaixão.

“Procurei respostas e acabei encontrando informações sobre o veganismo. Depois de ter me tornado vegana, resolvi abrir meu próprio negócio de culinária. Aí, veio a vontade de abrir um buffet vegano, que não existia aqui no Rio de Janeiro, algo em que os veganos pudessem ter tranquilidade com a procedência e a qualidade dos alimentos, que tivesse tudo de que um vegano precisa”, lembra a chef.

O lado artístico, do qual brotou “a Flor” do nome, está em ciclo universitário desde 2014, quando passou no vestibular de artes cênicas, na Unirio. A paixão maior de Thallita é a arte. Talvez por isso é que o Banana Buffet esteja bem. A atriz da cozinha dá vazão à criatividade, que se materializa em pratos saborosos e belos.

 

Com criatividade e feminismo na veia, Thallita é a líder do pessoal do Banana Buffet

E o feminismo, cadê, repórter? A moça não sabe exatamente quando se deu conta de ser feminista, porém recorda precisamente de uma série de detalhes que a fizeram entender a necessidade da luta como mulher negra.

“Quando entendi a dor da mulher negra, entendi o meu lugar. Entendi quais eram as minhas dores. Foi, inclusive, quando encontrei o feminismo negro, é importante esse recorte. A ficha caiu quando percebi que sofria preconceito pelo meu cabelo, pela minha pele. Precisava me unir a outras mulheres negras. E, quando me dei conta, estava no rolê”, diz.

O resultado dessa combinação foi mais uma articulação. Flor é uma das fundadoras do Movimento Afrovegano (MAV), do Rio de Janeiro.

“Foi a união de duas necessidades, de duas lutas. É preciso mostrar que existem negros veganos, negros preocupados com uma alimentação saudável”, enfatiza.

Conta mais, Thallita. A voz é sua aqui em O joio e o trigo.

Feminismo e mulher na cozinha

“Há maneiras diferentes de olhar para isso. A cozinha pode ser um lugar muito empoderador para uma mulher. Mas a questão é: por que existe essa gourmetização da comida atualmente? Porque o homem começou a cozinhar. Homens foram consagrados como chefs de cozinha. Então, a mulher tem é que brigar pelo espaço de chefia na cozinha. Claro que estou falando do mundo capitalista em que vivemos, de uma visão comercializada, mas acredito que a gente não pode deixar de brigar por esse espaço”, reflete a cozinheira.

Sobre relacionamentos amorosos e afazeres domésticos, Thallita comenta, sem titubear: “Tem que dividir as tarefas, porque é saudável cada um fazer uma parte. É saudável estar junto na cozinha e cada um fazer uma parte do processo”.

No entanto, quando o “lado cozinheira” dela predomina, a moça revela que tem algumas manias. “Ah, aí, eu não quero ninguém na minha cozinha. Mas também não é difícil, né?. É só a outra parte fazer serviços diferentes na casa”, avisa.

“A gente tem de fugir do estereótipo de que é a mulher é quem faz todo o trabalho doméstico. Cozinhar é um deles”

Para a chef (que é a voz mais alta neste momento da conversa, dentre os papeis que Thallita exerce), cada família ou relação tem uma dinâmica. Se um quer cozinhar sozinho, o outro tira o lixo, arruma a sala, limpa o banheiro.

“Isso, quando a mulher realmente gosta de cozinhar. Porque a gente tem de fugir do estereótipo de que é a mulher é quem faz todo o trabalho doméstico. Cozinhar é um deles. Posso não gostar de passar o pano de chão na casa e o cara é quem faz a faxina. A partir do momento que se quebra esse estereótipo, a gente consegue aceitar a ideia de que o lugar da mulher é onde ela quiser, seja na cozinha ou longe dela”, ressalta.

Com tudo isso, Flor ainda toma alguns cuidados. Não sai pelo Morro do Caramujo agitando bandeiras. Ainda vê riscos em assumir escancaradamente que é feminista: “Para quem me pergunta se sou feminista ou se tenho de ajudar outra mulher, eu falo, mas não saio gritando por aí. O meu tato com o homem favelado é maior, pois ele tem muito mais contextos que o colocam perto do machismo do que um homem branco rico. Onde moro, falo com os caras, dou conselhos, tento analisar a situação como um todo, claro que não tirando a culpa dele, mas o contexto que é dado a um homem negro favelado é muito mais propício ao machismo do que a um não favelado”

Ato político

O lado ativista vegano da jovem desperta quando a questão ética e política de comer é tocada. Ela indaga: “É ético ser racista?”.

“O racismo deve ser repudiado. É certo que a gente ainda tem dificuldade com isso, pelo racismo institucionalizado, mas, de modo geral, muita gente percebe que não é ético. Por exemplo, matar uma pessoa porque ela é negra não é ético, mas matar um animal é visto com normalidade. Quando eu digo que não é ético comer animais, é nesse sentido, porque eles também são ‘raças’ de seres vivos”, defende.

Ela explica que muitos momentos construíram a visão política que tem da alimentação. E indica o documentário Engrenagem, um curta de pouco mais de 16 minutos, recheado de animações. Informações fortes, de um modo rápido. Um vídeo que traz perspectivas ambientais, animais e econômicas, e que, na opinião da ativista, deveria chegar a muita gente.

“Fiquei surpresa no veganismo, pois muitas pessoas que são veganas odeiam seres humanos. Isso é uma coisa conflitante”

Porém, a voz de Thallita ecoa mais longe, numa fala contundente, que remexe a gente por dentro, veganos ou não. Adianta optar por não comer carne sem estar bem com a própria espécie?

“Para que você se preocupe com os animais não humanos, no mínimo, você já tem que estar bem com a sua própria espécie. Não faz sentido você procurar libertar alguém diferente porque você teve empatia, mas você não tem empatia por quem é igual a você. O número de pessoas que lutam pela humanidade já deveria ser o mesmo de pessoas veganas,  mas ainda não é assim. Todos os veganos deveriam estar inseridos em lutas pela humanidade. Fiquei surpresa no veganismo, pois muitas pessoas que são veganas odeiam seres humanos. Isso é uma coisa conflitante”, aponta.

Fora de moda

A quase onipresença da indústria alimentar não é encarada de modo simplista por Thallita Flor. Para a chef, a alimentação de hoje praticamente não é mais vista como “ato de sobrevivência”. Ou seja, se alimentar para ter energia, para continuar de pé e viver um dia após o outro saiu de moda.

“A nossa alimentação foi para um rumo completamente diferente e isso se dá pelo fato de que o ser humano, até onde eu sei, o ser humano é o único animal que busca comida por prazer. A nossa alimentação não se restringe a comer alimentos que são necessários, também tem a ver com o que a gente gosta. E, por gostar de comer, por querer sabores diferentes, a gente começou um processo de ter que Inovar o tempo todo e nem sempre a inovação acelerada traz coisas boas. Nem sempre alimento novo vem para te fazer bem”, analisa.

Lembremos dos biscoitos cheios de açúcar e gordura. Ou dos refrigerantes. Tem sabor agradável? Para alguns, sim. Thallita vê mais à frente: “A gente discute se um alimento faz bem ou não, mas a pergunta também é: ele é útil para você? Um biscoito, um salgadinho, são úteis para o seu organismo?”

A indústria na perifa

Segundo a chef, quem sofre mais as consequências do que ela chama de “loucura alimentícia” é a periferia. Buscar coisas novas o tempo todo, o consumismo – não importa se vai fazer mal à saúde. Parcela significativa do pessoal da favela vai atrás do que está na moda.

“O pessoal da periferia acaba influenciado a ir atrás. Existe a discussão de que nos mercadinhos da favela os produtos industrializados são piores. Por exemplo, aqui, no Caramujo, é muito comum ver marcas de refrigerantes que você não vê em grandes mercados do centro. Você vê marcas regionais, um refrigerante de cola menos conhecido do que a Coca-Cola. Não sei dizer qual é pior em termos de nutrientes, mas vejo outra situação: a questão social, o fato do refrigerante não ser conhecido, o que faz com que o status dele diminua. Não é só uma questão de ser ruim, mas do que significa como status social. Isso é uma coisa muito forte na periferia. Sempre que a pessoa tem uma oportunidade de comprar alguma coisa de marca, ela compra, para poder se sentir melhor. Seja na forma como se veste ou com o que come, a pessoa quer mostrar que não está por fora”, acrescenta.

Boa parte das pessoas da comunidade do Caramujo sabe que a alimentação mais saudável não é necessariamente mais cara, de acordo com a cozinheira. A maioria tem ciência de que se alimentar de vegetais é mais barato. O assunto complica quando as pessoas não sabem o que é comida saudável.

“Sempre digo que a gente não deve subestimar a capacidade do pobre de pensar, o que falta é chegar mais informação sobre alimentação saudável”

Thallita tem mais a falar sobre a relação indústria/periferia. De acordo com ela, as corporações alimentares estão “se lixando para a alimentação e saúde”.

“Quem mora aqui não sabe que existem vegetais que têm os nutrientes necessários para a vida. Falta informação, no sentido de conhecer mais sobre a alimentaçao vegana. Tem gente que me pergunta, mas só isso que você come te sustenta?”, pontua.

Pelo pique de Thallita, é claro que sustenta. Vamos relembrar: chef de cozinha e atriz. Ativista triplamente: feminista, negra, vegana.

“O maior trabalho é desmistificar isso, de que não sustenta. Outra coisa a ser combatida é de que o preço é alto em qualquer circunstância. Quando eu vendia quentinhas vegetarianas aqui, vendia a R$ 10 cada, a um preço acessível”, garante.

O que a moça não concorda de jeito maneira é que subestimem a inteligência de quem mora na comunidade.

“Sempre digo que a gente não deve subestimar a capacidade do pobre de pensar. O pobre pode ter empatia por animais, parar de comer carne. O que é crucial é que a mídia, quem tem o poder de espalhar a informação, diga ao pobre que comer vegetais não é frescura, que é um caminho mais saudável. Que, se for comer industrializados, a pessoa escolha os que não contêm tanto sódio, que não contêm tanto açúcar”, sugere.

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Breves histórias

Está em falta

“A gente também come muita porcaria porque não tem tempo, a gente não tem tempo de cuidar da vida pessoal, da saúde. O pobre chega cansado, quer comer um miojo, tomar um banho e dormir. Isso vai consumindo a nossa vida. Precisaria mudar a relação de trabalho. Muita mudança seria necessária para a gente cuidar melhor da alimentação”, frisa.

Orgânicos: tabu?

Se o acesso a vegetais não é tão difícil do ponto de vista econômico, comprar ingredientes orgânicos ainda é caro, normalmente. Mesmo na rotina pessoal, a chef confessa que tem de buscar lugares com descontos, mas que, em geral, não compra esse tipo de produto, porque os preços são impeditivos.

“Arrisco dizer que pobre não consome produto orgânico, a não ser que tenha uma horta em casa. Fora disso, dificilmente um pobre tem condições de consumir orgânicos”, assegura.

Na favela, orgânicos são vistos como coisa de gente “fresca”, ela diz. A visão, em muito, se dá por um ciclo negativo. A minoria que pode comprar produtos orgânicos pagam preços altos pelos itens, o que a ativista enxerga como “elitização da comida saudável”.

Veganos modinha

Thallita diz que há muitas pessoas vendendo “alguma coisa vegana por aí”.

“Sou um pouco chata, mas pessoas que não têm nada a ver surgem com uma tara por vender coisas veganas e fico incomodada. Por um lado, é bom ver surgir negócios veganos, mas tem negócio vegano surgindo com pessoas que não queriam ter aquele negócio. Elas criam reputação, ganham dinheiro e depois abandonam a gente. Fora a qualidade do alimento, que nem sempre é boa”, adverte.

Todo mundo é nutricionista

Dizem que uma dieta vegetariana ou vegana não é completa. A artista acha graça nisso.

“É até engraçado. As pessoas, geralmente, não estão preocupadas com a alimentação, mas, quando o outro fala que é vegetariano, todo mundo vira nutricionista. Pessoas que têm mania de sanduíches do McDonald’s criticam a alimentação vegetariana ou vegana”, diverte-se.

O que viraliza

Ativa também no ambiente virtual, Thallita tem forte presença na internet, com o blog Sim, sou vegana e feminista preta! No Facebook, a página do projeto já possui mais de 5 mil seguidores (fora os quase 4 mil que a seguem na página do Banana Buffet). Além disso, ela usa muito o Instagram.
“O que viraliza mais, creio, são as coisas de conteúdo mais específico, temático, seja no Instagram, no Facebook ou no blog. O Instagram, eu dedico um pouquinho mais para coisas do dia a dia, mostro a minha comida no café da manhã, coisas assim. Mostro quem sou, “gente como a gente”, para as pessoas verem que não tem mistério em ser vegana, periférica e negra”, diz.

Uma das criações do Banana Buffet e parceiros é o sanduíche de hambúrguer de acarajé, sem itens de origem animal

Constrangimento na Globo

Em setembro do ano passado, Thallita recebeu um convite do programa matutino Encontro, da Rede Globo, apresentado por Fátima Bernardes. A pauta incluiria a discussão sobre o tema da redução do consumo de carnes e a ativista poderia explicar, também, as experiências como mulher negra e da periferia. Não foi o que aconteceu.

A produção havia combinado que ela falaria sobre veganismo e o movimento afrovegano. Quando o programa foi ar, ela se viu sozinha em meio a pessoas que ou eram “adoradoras” de carne ou consumiam “de vez em quando”. Para piorar, durante a exibição houve uma operação conjunta do Exército e da polícia na favela da Rocinha, o que interrompia constantemente a atração.

“As coisas mudaram, o assunto acabou ficando raso. Não conseguia me aprofundar no tema da alimentação, de ser periférica, negra. Quase não consegui falar. Meu microfone ficava muito tempo desligado e, quando abriam, tinha um monte de questões que os outros convidados tinham levantado e eu mal conseguia responder, pela falta de tempo. Algumas situações me deixaram constrangida. Por exemplo, quando eu ia falar, um dos debatedores dizia: “Ah, mas você é toda magrinha”. Como se isso fosse um problema causado pela minha alimentação. Sempre fui magra, nada a ver com ser vegana”, conclui a ativista.

Foto de capa: Sim, sou vegana e feminista preta! 

Foto 1: Banana Buffet

Foto 2: Banana Buffet

A ciência da inquisição no século 21: o caso da África do Sul

Perseguição ao cientista Tim Noakes é exemplo do poder de orquestração da indústria do açúcar e da subserviência das organizações que a cercam por dinheiro  

Quatrocentas e oitenta e oito páginas para exorcizar 140 caracteres. O africano Timothy David Noakes, cientista em fisiologia do esporte, precisou escrever o livro Lore of Nutrition (Ciência da Nutrição, ainda sem tradução no Brasil) para fechar as portas do inferno abertas com a seguinte tuitada: “O bebê não precisa comer lácteos (industrializados) e couve-flor. Apenas leite materno e manter a dieta de baixo carboidrato”. Essas palavras eram apenas uma resposta a Pippa Styling, uma jovem mãe sul-africana com dúvidas sobre a dieta do filho, que começava a ingerir novos alimentos. Ela marcou Noakes na rede social. E o pesquisador, gentilmente, como era de praxe, respondeu. Eram 16h32 do dia 5 de fevereiro de 2014 e começava a perseguição ao homem nascido no Zimbábue.

Hoje com 68 anos de idade, o estudioso enfrentou 3 anos de inquisição em plena segunda década do século 21. Uma ação obscura realizada por inimigos de peso. Muitos atores – de nutricionistas a cientistas defensores de interesses prioritariamente econômicos – interpretaram os papéis de inquisidores. Todos dirigidos por uma mão forte no cenário da ciência da nutrição na África: a indústria do açúcar.

A linha de pesquisa de Noakes, que aponta sérios problemas de saúde como consequências do consumo de alimentos cheios de açúcares e ingredientes não saudáveis, foi o limite para que as trevas viessem à tona. Até a University of Cape Town (Universidade da Cidade do Cabo), na África do Sul, onde trabalhava, se voltou contra ele. Colegas de academia passaram a olhá-lo como adversário.

O establishment médico científico acumulava ressentimentos, já que o fisiologista havia demolido dogmas em temas que interessavam a pesquisadores financiados pela indústria. Objetos de estudo como hidratação, algo que O joio e o trigo contou aqui, motivação e fadiga nas competições esportivas profissionais e amadoras tiveram os parâmetros revistos no continente.

Um incômodo a quem quer manter lucros exorbitantes em prejuízo da saúde, no país que é o sétimo maior consumidor de refrigerantes do planeta e que tem índice de obesidade infantil em preocupantes 14,2%. A prevalência é mais elevada entre as meninas que vivem nas áreas urbanas, na casa dos 30%.

Vinte e oito por cento dos adultos estão obesos ou com sobrepeso em solo sul-africano. Num índice que inclui todas as faixas etárias e gêneros, chega o dado mais aterrador: a obesidade mórbida acompanha e ameaça 15% da população.

A diabetes, sozinha, matou mais de 25 mil pessoas em 2016, último ano com cálculos disponíveis. E as instalações de saúde pública do país registraram a média 10 mil novos casos da doença por mês.

Recebendo pressões nacionais e internacionais de instituições e ativistas pela alimentação adequada e saudável, e seguidas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o país debatia, desde 2014, a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas, à exceção dos sucos de frutas.

Finalmente, a taxa foi aprovada pelo parlamento em dezembro passado e entrará em vigor no dia 1º de abril. Fixado em 2,1 centavos por grama de teor de açúcar superior a 4 gramas por 100 ml, o novo imposto deve elevar a arrecadação tributária em, ao menos, 2 bilhões de rands sul-africanos, o equivalente a mais de US$ 1,6 bilhão ou R$ 5,2 bilhões.

Nesse ambiente, a indústria do açúcar precisava mostrar força. Estava decidido. Tim Noakes deveria cair no inferno e ser demonizado publicamente.

Primeiro círculo: a chantagem do limbo

A partir da superfície, alguém teria de fazer a função de abrir os círculos do inferno a Tim Noakes. Foi a esse papel que Claire Julsing Strydom, presidente da Associação de Dietética da África do Sul (ADSA) à época, se prestou. Ela denunciou o professor por “conduta não profissional” junto ao Comitê de Conduta Profissional do Conselho de Profissionais de Saúde da África do Sul (HPCSA) após a troca de tuítes com Pippa Styling.

Apenas um tuíte como fundamento e o fogo estava aberto. O fisiologista passaria pelo limbo, o lugar destinado a todas as “almas” não “batizadas” pela indústria do açúcar. O objetivo de quem o tratava como pagão era começar o caminho deixando-o na geladeira por um tempo, com a ameaça de cassar-lhe a licença médica e condená-lo ao esquecimento. Uma chantagem. Se houvesse um pedido de desculpas público, a denúncia poderia ser retirada.

No entanto, Noakes escolheu lutar e defender a posição que havia manifestado no Twitter e, principalmente, a linha de pesquisa em que trabalhava. Estava disposto a enfrentar o processo no conselho para dizer que não merecia ter a licença cassada e descortinar os interesses subterrâneos daquela disputa.

Os perseguidores de Noakes na disputa “diétetica” são muito mais vorazes do que os adversários das 70 provas em que ele correu

“Meu primeiro argumento foi apontar como as dietas com altos teores de carboidratos são biologicamente baseadas. A maioria dos humanos é resistente à insulina. Alimentar dietas com alto teor de carboidratos resistentes à insulina produz obesidade e diabetes tipo 2, mais outras condições relacionadas à síndrome de resistência à insulina, que incluem pressão alta, câncer e demência”, diz Tim Noakes, em entrevista exclusiva para a nossa reportagem.

Por experiência do próprio corpo, Noakes sabe do que fala. Descobriu-se diabético. Além disso, viu o pai morrer vítima de diabetes tipo 2. “Minha família seguia as diretrizes dietéticas dos EUA. Acreditávamos que tudo iria bem”, conta o fisiologista africano.

A família Noakes seguia o que a maioria faz: o “remédio do fracasso”, segundo o pesquisador. Médicos dizem aos pacientes que diabetes e obesidade são doenças complexas, genéticas, crônicas, progressivas e incuráveis. A indústria patrocina pesquisas que reforçam esse discurso, num movimento circular vicioso.

“Isso absolve-os de qualquer necessidade de resolver a causa real, ou seja, os produtos que causam esses problemas de saúde e outros relacionados, em primeiro lugar”, afirma Tim.

Uma argumentação sólida de defesa surgia na mente do professor. Ele devia descer ao circuito sombrio construído pela indústria para desmontar o ataque. O que mais lhe chamava a atenção no jogo das corporações era inspirado numa citação do poeta e ambientalista estadunidense Wendell Berry: “As pessoas são alimentadas pela indústria alimentar, que não presta atenção à saúde, e são tratadas pela indústria da saúde, que não presta atenção aos alimentos.”

De acordo com Noakes, os medicamentos modernos tratam obesidade, diabetes e hipertensão como se fossem doenças separadas. “Tudo está ligado. Há uma única condição subjacente: resistência à insulina. Meus pacientes não têm pressão alta ou obesidade, por exemplo. A condição subjacente é a resistência à insulina e, se não tratamos a condição subjacente, simplesmente tratamos sintomas, não a doença”, explica o cientista.

Segundo círculo: o “pecador”

A postura combativa de Noakes o libertou do congelamento, mas ainda havia muito a enfrentar. O palco dos julgamentos dos “pecadores contra a indústria” era a próxima etapa. Nele, o médico confrontaria o começo de uma longa jornada.

“A perseguição a mim foi orquestrada pelas forças que controlam as diretrizes dietéticas em todo o mundo. Aqueles que trouxeram as acusações estavam atuando como representantes de organizações privadas”, revela o fisiologista africano.

Especificamente na África do Sul, as principais organizações de “financiamento” dos conselhos dietéticos são a Associação do Açúcar Sul-Africano e empresas de comercialização de cereais, grãos processados ​​e óleos vegetais. Nessa conjuntura, o International Life Sciences Institute (ILSI), uma instituição aparentemente científica, compõe a linha de frente – contamos sobre a atuação do ILSI no Brasil em várias reportagens.

“O ILSI representa a Coca-Cola, a indústria farmacêutica e empresas como a Monsanto, e desempenhou um papel central (no julgamento), uma vez que várias testemunhas especializadas que se colocaram contra mim têm fortes ligações com o instituto”, conta.

Pudera. O ILSI é, literalmente, filho da Coca-Cola. Nasceu em 1978, fundado pela corporação que vende o refrigerante mais conhecido do planeta. Rhona Applebaum, diretora mundial de Ciência e Saúde da Coca até 2015, quando se “aposentou” após se ver envolvida em denúncias de financiamento para direcionar estudos, foi presidente do instituto até o final do mesmo ano. Um histórico resumido desenha com clareza o perfil da entidade: na OMS, representantes do ILSI interferiram nas políticas antitabaco, nos esforços contra doenças crônicas, e, mais recentemente, nas orientações dietéticas que limitam a ingestão de açúcar.

A influência do ILSI se mostra tentacular no caso Noakes. A Universidade da Cidade do Cabo, ex-empregadora de Tim, e a ADSA, representada pela denunciante Claire Strydom, andavam de braços dados no intuito de condenar o pesquisador.

As evidências de envolvimento conjunto dessas organizações nos bastidores são diversas. Em 2015, quando o julgamento atravessava momento crucial, o ILSI financiou um estudo de ingestão de micronutrientes em crianças sul-africanas, conduzido por membros do Departamento de Nutrição da Universidade do Cabo. Uma “pesquisa fraudulenta”, segundo Noakes, feita para comprovar que o açúcar não seria o responsável pelo crescimento de doenças crônicas não transmissíveis no país.

O departamento acadêmico, por sua vez, prestou apoio significativo à equipe de acusação, bancando trabalhos da professora Marjanne Senekal, na mesma linha do estudo financiado pelo ILSI.

Para completar, a direção da universidade articulou e foi coautora de uma carta escrita por quatro professores, publicada em jornal local, num texto extremamente agressivo contra Tim Noakes.

Bombardeado por ex-companheiros, o fisiologista necessitava, além de se defender cientificamente, desnudar as relações detrás dos ataques e as finalidades econômicas que os dirigiam.

“Sim, eles (ex-colegas de universidade) fizeram tudo isso, incluindo o decano da Faculdade de Medicina e professores de medicina, que escreveram ao jornal local da Cidade do Cabo dizendo que eu promovia uma revolução; que eu falava de curas impossíveis, quando eu apenas relatava o que os pacientes me diziam sobre diabetes, por exemplo”, ressalta o pesquisador.

Em síntese, ele era acusado por “pares” de promover “um debate acadêmico sufocante” e de realizar trabalhos que não eram compatíveis com “os altos padrões” da universidade. Isso, apesar de ser um dos 13 cientistas classificados pela Universidade do Cabo como A1 (a classificação máxima), num ranking que foi novamente oferecido em novembro de 2016, quando o julgamento se aproximava do fim e os argumentos de Noakes se fortaleciam.

“Eu acredito que as ações antiéticas contra mim indicam até que ponto a universidade, assim como a maioria, foi capturada pelos interesses das grandes empresas, incluindo as corporações farmacêuticas e de alimentos”, avalia o professor.

Terceiro círculo: a lama

Hora de nadar no “lago da lama”, espaço reservado aos que sucumbiram ao pecado da gula. No caso em questão, a gulodice possui dois sentidos, que se encontram no fim de uma bifurcação: 1 – apetite desmedido por dinheiro. 2 – uma população que se enche de açúcar “orientada” por uma espécie de “marketing científico”.

Após a denúncia de Claire Strydom, a Comissão de Inquérito Preliminar do Conselho de Profissionais de Saúde se reuniu em 22 de maio de 2014 para resolver se Noakes seria ou não julgado. Foram dois dias de reuniões e nada concluído. A decisão ficou para um novo encontro, marcado para 10 de setembro.

Nesse meio tempo, a comissão encomendou um relatório secreto para “nortear a decisão”. A encomenda foi pedida à médica Esté Vorster, ex-presidente do ILSI na África do Sul. Pedido feito e prontamente acatado, o documento produzido por Vorster mencionava uma nova análise que, supostamente, refutava a posição de Noakes, que só teria a oportunidade de ler o conteúdo quando um funcionário do conselho o enviou, por engano, aos advogados de defesa.

Éste Vorster: sempre pronta para atender os interesses da indústria do açúcar

“No meu julgamento, apresentamos 12 dias de evidência científica. Em contraste, a acusação baseou-se em um único estudo”

O texto citado por Vorster recebera o apelido de “Naude Review” (Revisão Naude), em referência à autora principal, Celeste Naude. O estudo é aquele apoiado pelo ILSI e considerado uma fraude por Tim Noakes.

“Não havia base científica para os ataques. No meu julgamento, apresentamos 12 dias de evidência científica, incluindo o contra-interrogatório. Em contraste, a acusação baseou-se em um único estudo, o Naude Rewiew, que é irremediavelmente falho e até fraudulento. Os argumentos científicos produzidos pela acusação eram facilmente destruídos por nossos advogados de defesa”, enfatiza Noakes.

Realmente, uma boa pesquisa mapearia a situação sem muitas dificuldades. Celeste Naude, no ano de 2014, palestrou no “Simpósio Açúcar e Saúde”, evento da Associação do Açúcar, a mesma entidade que pagou os gastos com a pesquisa liderada por ela em 2015.

Em linhas gerais, a “Naude Review” classifica as dietas de baixo carboidrato (glicídios e açúcares) num patamar de consumo de 45% diários desses nutrientes. E descreve como “equilibrada” uma dieta com base de até 65% ao dia.

Quando a revisão foi publicada, em julho de 2016, as organizações de saúde financiadas pela indústria de junk food da África do Sul entraram em ação, usando a análise para tentar desacreditar Noakes. O material de divulgação da pesquisa recomendava entrar em contato com representantes da ADSA e HPCSA para mais informações.

Com ar triunfante, a Associação do Açúcar informou, nas redes sociais, “que novas descobertas desmascararam as alegações de que dietas pobres em carboidratos resultam em mais perda de peso”.

Só em dezembro de 2016 Tim Noakes conseguiu espaço e tempo para responder cientificamente. Em dupla com a pesquisadora estadunidense Zoë Harcombe, publicou a crítica “The universities of Stellenbosch/Cape Town low-carbohydrate diet review: mistake or mischief?” (As universidades de Stellenbosch/Cape Town na revisão da dieta de baixos carboidratos: erro ou prejuízo?), a respeito da “Naude Review”, mostrando que nem mesmo os padrões relatados na seleção de estudos para a revisão foram seguidos.

Quarto círculo: os avarentos

A “missão” da indústria é acumular riquezas materiais acima de preocupações com direitos fundamentais, como saúde, alimentação adequada e informações seguras. E algumas entidades ditas científicas fazem de tudo para engordar o caixa.

“Nenhuma unidade do ILSI no mundo é instituição científica. O que se tem, no ILSI, é uma organização funcionando para a Coca-Cola e muitas outras organizações com reputação duvidosa, como a Monsanto”, sentencia Tim Noakes.

De acordo com ele, financiamentos de empresas como a Coca-Cola são chamados na África de “fruta baixa”. Ou seja, são fáceis de alcançar. As corporações, sempre espertas, têm consciência de onde e com quem deixar essas frutas.

“Há cientistas que são atraídos para esse tipo de financiamento. Eles são mais narcisistas e mais fáceis de ser controlados pelos financiadores, pois são criticamente dependentes desses recursos”, analisa.

A indústria do açúcar, portanto, sabia a quem procurar com o objetivo de atacar o pesquisador. Nomes mais facilmente influenciáveis para encontrar o que as corporações queriam mostrar estavam à mão, no ILSI.

Não mais que um decoreba é a resposta típica das organizações financiadas pelas corporações quando se fala em doenças crônicas não transmissíveis e obesidade. Os altos e crescentes índices desses males seriam responsabilidade de pessoas que não se cuidam por “preguiça”. Dessa forma, uma questão difusa, de saúde pública, é individualizada. Os maus hábitos dos consumidores se tornam o centro do debate, numa manobra de desvio de foco.

Isso é ótimo à economia das corporações, que produzem itens de baixa qualidade nutricional em larga escala e os vendem em ritmo acelerado. E péssimo ao bolso dos cidadãos, do qual sai dinheiro para comprar comida porcaria e, depois, remédios. Duplamente péssimo: porque o prejuízo, muitas vezes, estoura no sistema público de saúde, nos tributos recolhidos, e são usados para reparar problemas causados pelo trilhardário setor privado da indústria alimentar. A África do Sul é um retrato fiel dessa situação.

Além de ser ex-presidente do ILSI, Esté Vorster manteve laços com a Associação do Açúcar Sul-Africano, que lhe financiou pesquisas por anos. Ela, inclusive, é integrante do painel científico da entidade, o que a OMS definiu “como um conflito de interesses“, recomendando que a médica “se abstivesse de participar dos debates específicos e do processo de tomada de decisões para o desenvolvimento de recomendações e orientações sobre os açúcares em âmbito mundial”.

No entanto, na África do Sul, ela ainda goza de um status de pesquisadora respeitada quando se fala em qualquer tópico relacionado a junk food. Enquanto presidia o ILSI, desenvolveu e foi coautora das primeiras orientações dietéticas do país, sempre par e passo com a Associação do Açúcar, a financiadora do primeiro workshop que balizou as diretrizes, realizado no Zimbábue.

Nesse evento, o ILSI pagou passagens e estadias a delegados que compactuavam com as orientações para “partilhar a experiência sul-africana com 11 outros países africanos.” A presidente do grupo de trabalho era Penny Love, que foi consultora da Associação do Açúcar, o que incluía organizar simpósios sobre “açúcar e saúde”.

Vorster e outro integrante do ILSI, o irlandês Michael Gibney (o mesmo que, em 2017, encabeçou um ataque à classificação NOVA, base do Guia Alimentar para a População Brasileira, criada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, liderado pelo professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Carlos Monteiro), publicaram as primeiras diretrizes alimentares da África do Sul em 2001, no Journal of Clinical Nutrition. A publicação incluiu um artigo intitulado “Desenvolvimento de orientações alimentares dietéticas para a África do Sul – o processo”. Carol Browne, diretora da Associação do Açúcar, assinou como coautora, declarando a afiliação profissional como “relações públicas” da organização.

Mesmo assim, a expressão “conflito de interesses” não aparece em nenhum dos materiais publicados sobre as diretrizes. Porém, os documentos as manifestam por outras palavras: “os alimentos ricos em açúcares evitam doenças crônicas por vários efeitos e mecanismos”, garante uma parte do texto. Outro trecho traz a afirmação de que “a ingestão moderada de açúcar e alimentos ricos em açúcar também pode fornecer uma dieta saborosa e nutritiva”. De outro lado, inexistem recomendações para limitar a ingestão de açúcar.

O Departamento de Saúde da África do Sul aceitou as orientações para 2001. Provisoriamente, mas aceitou. Depois de pressões da sociedade civil e de alguns poucos cientistas, entre eles, Tim Noakes, a repartição decidiu cobrar dos “especialistas” que as diretrizes abordassem limitações ao consumo de açúcar.

O governo adotou oficialmente as primeiras diretrizes em 2003, com a pequena advertência de “ingerir alimentos e bebidas que contêm açúcar com moderação e evitar o ingrediente entre as refeições”.

Nove anos depois, em 2012, o governo sul-africano lançava a segunda edição das diretrizes dietéticas. E lá estava Esté Vorster, dessa vez como autora principal. O show de aberrações estava garantido. Apesar de a equipe dedicada ao “suporte técnico do açúcar” observar que “o consumo de açúcar adicionado parece estar aumentando constantemente em toda a população sul-africana”, as novas orientações foram ainda mais favoráveis à indústria açucareira. A advertência de não ingerir açúcares entre as refeições foi removida e substituída por uma frase pouco enfática “usar açúcar e alimentos e bebidas ricas em açúcar com moderação”.

Além de Vorster, a ADSA pediu a participação da indústria na criação das diretrizes de 2012. A indicada foi Sue Cloran, gerente de nutrição e marketing da Kellogg’s, e membro da força-tarefa do ILSI na Europa.

Três em um: ira + “heresia” = ciência violentada

Pode-se dizer que, durante o processo, Noakes viveu um conflito em várias trincheiras. Confrontou a ira da indústria e daqueles que a defendem fielmente, ainda que precisem “pecar” contra a ciência. E até violentá-la para proteger interesses privados.

Esté Voster chegou a esse ponto. Um problema para julgar e condenar Tim Noakes era a fragilidade da denúncia original de Claire Strydom, baseada no Twitter. A defesa do acusado dizia que “não havia base em evidências científicas”.

Na tréplica, não foi Strydom quem teve destaque, mas, sim, Vorster. Ela respondeu que não havia necessidade de apoiar a denúncia com “evidência experimental” e “que as referências das orientações dietéticas baseadas em alimentos pediátricos sul-africanos seriam suficientes”.

A partir dessas premissas nada confiáveis, a médica concluía que Noakes “ou não está familiarizado ou não confia nas atuais orientações dietéticas da África do Sul, e, portanto, não é qualificado para aconselhar sobre questões alimentares”. Claro que, em nenhum momento, ela falou sobre o fato de ser uma das principais autoras das orientações financiadas pela indústria açucareira.

Apesar de todos os problemas apresentados, o relatório de Vorster foi bem-sucedido no propósito inicial: a comissão responsabilizou Noakes em 10 de setembro de 2014. A sentença, chocante para ele e os advogados de defesa, alegava que o pesquisador teve “comportamento ou conduta não profissional, agindo contra a conformidade das normas e padrões de sua profissão e fornecendo conselhos não convencionais sobre amamentação de bebês em redes sociais”.

Oitavo círculo: hipocrisia

Perspectivas jornalísticas superficiais do julgamento de Tim Noakes eram publicadas aqui e ali na África do Sul. Repórteres que compareceram a uma audiência viram Claire Strydom desabar em lágrimas. Parecia difícil crer que aquele rosto delicado tomado pelo choro fosse parte de uma articulação pró-açúcar.

Strydom, contudo, era apenas a parte mais visível da investida contra o pesquisador. Havia peças muito mais poderosas atrás das cortinas. Quando apresentou a denúncia, Claire, além de presidente da Associação de Dietética da África do Sul, era consultora nutricional da Kellogg’s.

Face mais visível da articulação contra Noakes, “rosto delicado” de Claire “comoveu” parte da mídia

Com o julgamento iniciado, ela apagou a maioria da documentação on-line que expunha o relacionamento com a corporação. No entanto, não deu para esconder tudo. Ainda hoje é possível ver rastros. No site da empresa “para soluções nutricionais” pertencente a Strydom estão as experiências como consultora de muitas megaempresas, Kellogg’s inclusa.

Dentro da ADSA, Claire não está sozinha. A diretora Linda Drummond é “manager” de nutrição e relações públicas da Kellogg’s. Cheryl Meyer, responsável pela comunicação da associação, e Leanne Kiezer, tesoureira, eram, respectivamente, consultora e assistente nutricional da transnacional.

Os textos institucionais da ADSA procuram a isenção. “Nós não acreditamos no endosso de marcas para as comunidades para que trabalhamos” é a tônica do falatório, o que não combina com o mais de 1/3 da receita da entidade saído de patrocinadores corporativos, incluindo Nestlé e Unilever.

Tem mais. Em parceria com a Sociedade de Nutrição da África do Sul (NSSA), a ADSA organiza um congresso anual de nutrição. Os patrocínios são os óbvios. Gigantes das indústrias alimentar e farmacêutica; Associação do Açúcar Sul-Africano, Unilever, Nestlé Nutrition Institute, Kellogg’s, Glaxo Smith Kline e Discovery Vitality.

Em maio de 2014, as sociedades de nutrição locais ainda receberiam reforço institucional do ILSI, com o primeiro encontro sobre nutrição do instituto em território sul-africano. Dele, foi extraído um grupo de trabalho para o país. Isso ocorreu nove dias antes da primeira reunião da comissão da HPCSA que decidiria se Noakes seria julgado. A decisão foi adiada, mas a linha de frente a serviço do açúcar não perdeu tempo.

Nunca uma força-tarefa do ILSI havia sido criada com a especificidade de se dedicar à nutrição na África do Sul. E, logo, surgiria mais uma “coincidência”. A primeira atividade oficial do grupo foi a apresentação no congresso de nutrição da ADSA de 2014, com foco em construir “parcerias de colaboração entre academia, governo e indústria”.

Era setembro daquele ano, justamente quando Noakes recebia a notícia da confirmação do julgamento no conselho federal.

Três diretores do Departamento de Saúde da África do Sul falaram na sessão, representando as direções Nutricional, de Promoção da Saúde e Nutrição e de Doenças Não Transmissíveis, o que ajuda a dimensionar o poder da indústria do açúcar no país, que Tim Noakes enfrentava.

Nono círculo: a derrota da traição

Depois de cumprir um longo e tormentoso caminho, ficou mais fácil para Noakes compreender que não eram Claire Strydom ou Esté Vorster as grandes responsáveis pelo julgamento. Cada movimento deixava mais evidente quem estava mexendo as peças. Vieram as audiências e, em novembro de 2015, o conselho convocou “peritos” para formar o grupo de acusação.

Fora a previsível convocação de Vorster, vieram Ali Dhansay, Salomé Kruger e Willie Pienaar. Dhansay e Kruger possuem registros de relações com a indústria de comida porcaria.

Dhansay, que é pediatra, também presidiu o ILSI da África do Sul, em 2013, quando trabalhou em cooperação com representantes das megaempresas Coca-Cola, Mars, Nestlé e Bayer. Atualmente, é presidente da Sociedade de Nutrição da África do Sul, entidade de longeva proximidade com a indústria. Mais grave: chefia o South Africa Medical Research Council (Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul). O homem que lidera a produção de pesquisas de intervenção nutricional para o governo sul-africano é o mesmo que mantém laços apertados com as corporações do açúcar.

Histórias de financiamentos pelo dinheiro do açúcar também não faltam a Salomé Kruger. Ela, que se apresenta como cientista da nutrição, teve pesquisa bancada pela Associação do Açúcar Sul-Africano. O trabalho atenua os efeitos da alimentação excessiva e de má qualidade e coloca o sedentarismo como o “principal determinante da obesidade em mulheres negras na província do Noroeste do país”. O estudo segue o padrão adotado pelo Global Energy Balance Network, da Coca-Cola, que patrocinou pesquisadores de vários países para comprovar que o problema não está no refrigerante, mas nas pessoas preguiçosas e sedentárias.

Noakes enfrentava um batalhão, mas a narrativa que mantinha era consistente. As audiências se arrastaram até 2017 e o pesquisador teve a oportunidade de responder uma a uma às críticas dos que o tinham como alvo. Dentre a estratégia de acusação, o único documento pretensamente científico usado contra ele (a análise de autoria de Celeste Naude e defendida por Esté Vorster) foi dissecado.

“Na verdade, fornecemos provas de que o documento é fraudulento. Os autores ainda precisam explicar como o artigo pode ter tantos erros. E as universidades em que trabalham não conseguiram completar avaliações críveis desses documentos para mostrar que os erros podem ser explicados por falha humana em vez de intenção deliberada de prejudicar a minha posição científica”, desabafa o professor.

Tim precisava contra-atacar de maneira fulminante. Para não deixar dúvidas, a defesa mostrou o quanto a adoção da dieta industrial moderna, à base de alimentos ultraprocessados, coincide com o aumento de doenças crônicas não transmissíveis. Também se concentrou na resistência à insulina como o principal motor das chamadas “doenças do estilo de vida”, que, na concepção de Noakes, são distúrbios nutricionais.

Em 21 de abril de 2017, o cientista foi absolvido do “crime” que não cometeu pelo comitê do HPCSA, por 4 votos a 1. Sequelas chegaram, porém. Se não materiais, já que os dois advogados principais, Mike van der Nest e Ravin Ramdass, trabalharam de graça, as consequências emocionais foram inevitáveis.

O desafio, então, era sair do estado depressivo após o trauma a que ele e familiares foram submetidos.

“Minha esposa e eu ficamos incrivelmente estressados ​​durante todo o julgamento. Não podíamos pensar em nada além do julgamento e eu estava bastante deprimido, o que é o oposto do meu estado normal. Quando terminou, comecei a me curar, mas a depressão ameaçava voltar quando me lembrava do que passamos. Agora, esse poço de depressão parece ter sido esvaziado”, confessa o professor.

Talvez, uma das mais importantes saídas terapêuticas para Noakes combater a depressão e o estresse tenha sido perceber, depois de passada a tormenta, o que representou o resultado do processo: uma contundente derrota para todos os que promovem e se beneficiam das atuais diretrizes dietéticas sul-africanas.

“Eles nunca esperaram as consequências de suas ações imorais. Eles nunca imaginaram que escreveríamos um livro sobre tudo o que aconteceu comigo nos últimos anos. Agora, suas ações estão registradas para o mundo ver. Eles não conseguem se esconder das consequências do que fizeram”, diz Noakes.

É nessa parte que entra o segundo mecanismo terapêutico usado por Timothy David Noakes. O livro Lore of Nutrition, escrito em parceria com a jornalista sul-africana Marika Sboros, fornece respostas científicas a todos os ataques sofridos pelo pesquisador, que, na obra, não foge de nenhum tema. Traz, inclusive, a publicação dos argumentos de acusação na íntegra.

“É um livro de ciência, mas apresentado como se fosse um romance. Não poderíamos ter um veículo melhor para levar nossa mensagem para a África do Sul e, depois, para o mundo”, reflete o cientista, que agora aguarda o resultado do julgamento de uma apelação da acusação junto ao HPCSA, que deve sair ainda neste mês.

Mais de 36 mil pessoas, principalmente profissionais de saúde de várias partes do planeta, tinham assinado, até o fechamento desta reportagem, uma petição criada por um grupo de médicos independentes dos Estados Unidos reivindicando que o processo contra o pesquisador seja extinto.

Enquanto isso, Noakes segue trabalhando e afirma que a missão é levar o mais longe possível a mensagem de uma alimentação realmente equilibrada, com “comida de verdade” e baixa quantidade de carboidratos/açúcares, principalmente para os resistentes à insulina. Ele está perto de iniciar um teste de uma dieta econômica e baixa em ultraprocessados e carboidratos nas comunidades mais pobres da África do Sul.

O cientista conta que, após a publicação do livro, se emocionou ao receber mensagens de “um grande número de colegas médicos”, que escreveram para anunciar mudanças de práticas, se concentrando no papel da nutrição nas doenças crônicas.

“Esperamos que o livro também ajude o público a perceber até que ponto sofremos lavagem cerebral para acreditar numa série de mitos alimentares promovidos para o benefício financeiro das indústrias farmacêutica e alimentar. Que as pessoas percebam que o que acreditamos sobre alimentos e o que escolhemos comer como resultado serão os principais determinantes de como vivemos. E, igualmente importante, de como morremos”, finaliza Tim Noakes.

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De quem conhece

Se Tim Noakes é referência há tempos no Continente Africano e ganhou projeção nos Estados Unidos e Europa, na América Latina o trabalho dele ainda é pouco conhecido. Mesmo o caso do julgamento bancado pela indústria do açúcar foi quase negligenciado pelos noticiários daqui.

Um dos poucos que acompanha sistematicamente a pesquisa do cientista africano e que tem conhecimento profundo sobre as circunstâncias da “guerra nutricional” travada na África do Sul é o médico José Carlos Brasil Peixoto, de Porto Alegre.

“O que a indústria e as associações financiadas por ela fizeram ao Tim Noakes foi uma demonstração do poder financeiro das corporações. Foi uma exibição que levou um recado a pesquisadores do mundo todo: ‘Quem se posicionar contra a indústria do açúcar e dos ultraprocessados vai sentir o nosso poder’”, destaca Peixoto.

Para ele, a postura de Noakes colocou “em alerta máximo” os interesses da grande indústria alimentar. Por isso, a reação veio com um exemplo de força e coerção.

“Naturalmente, as forças do poder estão totalmente infiltradas em instituições oficiais, na educação, entidades de regulamentação e vários órgãos de governo. Há nomes pomposos que representam e, ao mesmo tempo, encobrem esses interesses. Aparentemente, na África do Sul, assim como no Brasil, a justiça é o braço forte do rei. Obviamente, a ciência de verdade não existe para garantir interesses. No entanto, se os financiadores das pesquisas são os mesmos que lucram com seus resultados, quem pode chamar isso de ciência?”, questiona o médico gaúcho.

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Nota de Rodapé: as pequenas descrições dos círculos do inferno presentes no texto não expressam nenhum tipo de posição religiosa do autor ou de O joio e o trigo. São, na verdade, referências literárias e remetem à obra A Divina Comédia, escrita pelo autor florentino Dante Alighieri, no século 14.

Nota de Rodapé 2: saiba mais sobre a atuação de organizações como o ILSI no Brasil aqui e aqui.

Quem dá as cartas nos eventos de saúde nem sempre é a saúde

Foto 1: Tim Noakes/Facebook

Foto 2: Tracey Adams

Foto 3: Nutrional Solutions

 

 

 

Rotulagem de alimentos: quem tem a força na Anvisa?

Agência não explica de onde partiu recomendação para analisar ‘fortemente’ modelo de rotulagem frontal apresentado fora do prazo por uma associação parceira da indústria de ultraprocessados

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltou a dar sinais dúbios sobre o padrão de rotulagem frontal de alimentos ultraprocessados que será adotado no Brasil. Em breve depoimento exibido durante debate realizado segunda-feira (26) na TV Câmara, a gerente-geral de Alimentos da Anvisa, Thalita Antony de Souza Lima, enfatizou que está em análise um modelo ainda em fase de implementação na França.

“Recentemente, a Anvisa recebeu um pedido para que fosse considerado fortemente um modelo chamado NutriScore”, disse Thalita. A frase tem sujeito e objeto, mas falta um elemento: quem pediu que fosse considerado “fortemente” o modelo francês? Tentamos obter uma resposta oficial da agência reguladora, mas, como é de praxe, fomos ignorados.

O NutriScore, publicamente, corria por fora dessa disputa, antagonizada pela indústria de ultraprocessados e pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, uma coalizão formada por ONGs e especialistas da área de saúde.

O modelo apresentado pelos fabricantes propõe a adoção de um semáforo com as cores verde, vermelho e amarelo para sal, açúcar e gorduras saturadas.

Já o sistema encampado pelas entidades da sociedade civil se baseia no que foi adotado em 2016 no Chile. São sinais de advertência. No caso brasileiro, os estudos conduzidos pela Universidade Federal do Paraná e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) resultaram em triângulos com fundo preto que destacariam o excesso de sal, açúcar, gorduras totais e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes.

O NutriScore, como se pode ver pela imagem, lembra a lógica de classificação de eletrodomésticos, que recebem notas de A a E quanto a consumo de energia. No caso dos alimentos, porém, a nota é dada por um algoritmo que cruza as informações nutricionais.

A afirmação da gerente-geral de Alimentos reforçou a informação de bastidores de que a Anvisa tentaria encontrar um caminho intermediário entre os interesses da sociedade civil e os da indústria de alimentos. Durante audiência pública realizada em novembro, Thalita já havia dado declarações pouco claras sobre os rumos da agência. Na ocasião, a leitura de que não havia evidências científicas suficientes foi aplaudida pela indústria e lamentada pelos representantes da sociedade civil.

No último dia 13, a jornalista Claudia Collucci, da Folha de S. Paulo, comentou que a agência está sob pressão dentro do governo para que adote uma medida em favor da indústria. O problema, como veremos adiante, é que o semáforo não tem sido muito convincente.

Conflito de interesses

E como o NutriScore chegou à mesa do órgão regulador? Inicialmente, chegou depois do prazo. A agência já havia realizado essa primeira audiência pública, dando sequência a uma discussão iniciada muito tempo antes, e que deve ter desfecho ainda em 2018. Em dezembro, haveria mais um encontro a portas abertas, mas a agência recuou e passou a tratar do assunto em reuniões menores, fechadas.

A Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) começou a propagandear o NutriScore em dezembro. Nós podemos relevar o fato de que foi apresentado fora do prazo com o argumento de que, mais importante do que o rigor com os trâmites, é o que é bom para a saúde pública. Vá lá. A história foi divulgada em 20 de dezembro, quando as atenções das pessoas estão mais voltadas a festejos e descansos. E, ainda assim, nem sequer a proposta estava oficializada: o material de divulgação fala que o NutriScore seria apresentado à Anvisa “o mais breve possível”.

“Vamos propor à Anvisa o NutriScore da maneira como ele foi concebido, que avalia o que há de positivo e negativo no mesmo produto e é oposto da rotulagem restritiva, que não nos agrada”, afirmou Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia.

Ele afirmou que a “proibição” representada pelo modelo chileno não funciona e que o importante é dar orientações à população. É o mesmo argumento da indústria. O que não é surpresa: a Abran é conhecida pela proximidade com os fabricantes de ultraprocessados. Também não é surpresa saber que associações científicas com conflitos de interesses têm vez e voz na Anvisa.

Uma das atividades da Abran é conceder selinhos de certificação para produtos que paguem por esses selinhos. No ano passado, a entidade produziu artigo em que defendia a segurança do aquecimento de azeite a altas temperaturas, tema muito debatido na pesquisa científica. Uma conhecida empresa de azeite é compradora dos selinhos da Abran.

A associação realiza ainda o Congresso Brasileiro de Nutrologia, no ano passado organizado num centro de convenções em São Paulo. A existência de uma área comercial é “comum” nos eventos de saúde, mas a do encontro de nutrólogos superou todas as que cruzamos pelo caminho. Havia uma enorme feira com farta distribuição de brindes. E, para chegar às salas, era obrigatório passar pelo meio dos estandes. Entre muitos debates, acompanhamos um que relativizava a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre aleitamento materno exclusivo até os seis meses; e outro que promovia um produto mágico para o emagrecimento.

Critérios

No material de divulgação apresentado às vésperas da chegada do Papai Noel, a Abran não esclareceu qual modelo de perfil nutricional adotaria. Isso é tão importante quanto o design. Falando a grosso modo, o sistema trazido do Reino Unido pela indústria tem critérios mais frouxos quanto àquilo que receberia sinais vermelhos e amarelos.

“Tem diferenças brutais e extremas no que diz respeito a esses critérios de ponto de corte. A proposta apresentada pelo Idec é baseada em critérios internacionais”, disse Igor Britto, advogado do Idec, no programa realizado pela TV Câmara. Ele exemplificou usando os refrigerantes: enquanto 80% dos produtos hoje disponíveis receberiam algum sinal de advertência, apenas 20% teriam a cor vermelha se adotado o padrão da indústria.

No geral, o estudo apresentado pelo Idec à Anvisa revelou que pouquíssimos produtos teriam semáforo vermelho, ao passo que a maioria desses mesmos produtos receberia ao menos um sinal de advertência se adotado o sistema defendido pela sociedade civil.

Vamos pegar um caso clássico. O Toddynho teria dois triângulos pretos (açúcar e gorduras saturadas). Mas, no sistema da indústria, haveria apenas um sinal amarelo (açúcar) – o que significa que crianças receberiam sinal verde para um produto alto em gorduras saturadas.

Nós olhamos produtos similares sob a ótica do NutriScore, e todos marcaram as notas D ou E, o que também transmite ao consumidor uma ideia do tipo “Putz, melhor não comprar isso aqui”.

No caso do Toddynho Light, de novo haveria dois triângulos pretos, para sal e açúcar. No sistema da indústria, seguiria lá o sinal amarelo para açúcar – crianças receberiam sinal verde para um produto alto em sódio.

Contradições

A decisão da Anvisa de colocar o NutriScore no páreo também contradiz o que a agência reguladora havia declarado na audiência pública realizada em novembro: na ocasião, foi deixado claro que os técnicos consideravam insuficientes as evidências científicas apresentadas tanto pela sociedade civil como pela indústria. E enfatizou-se a necessidade de que os modelos fossem testados na realidade brasileira.

É o que os dois lados fizeram. Indústria e Aliança conduziram pesquisas comparativas e entregaram à agência conclusões opostas. Já o NutriScore não foi testado no Brasil e, mesmo em âmbito global, há pouquíssima literatura publicada a respeito, ao passo que o semáforo foi razoavelmente estudado e o modelo chileno tem evidências crescentes a respeito do funcionamento.

Há duas questões fundamentais sobre o sistema francês. Primeiro, é de adesão voluntária. Segundo, ele se saiu bem na comparação com outros modelos, mas o padrão chileno foi deixado de fora.

Você pode conhecer a comparação entre modelos no minidoc recém-lançado pelo canal Do Campo à Mesa.

falamos brevemente aqui no Joio sobre a apresentação de Michael Rayner, da Universidade de Oxford, durante o Congresso Internacional de Nutrição, realizado em outubro do ano passado em Buenos Aires. Rayner é um dos criadores do semáforo nutricional, primeiro sistema de rotulagem frontal, adotado na década passada no Reino Unido. Como o modelo é de adesão voluntária, apenas 60% dos produtos estão integrados. E não é difícil imaginar quais produtos as empresas optam por rotular.

O importante é que Rayner disse de maneira clara que o semáforo não funciona a contento. Só para não deixar esquecer, é esse o sistema que a indústria gostaria de adotar no Brasil. Porém, entre a apresentação desse modelo à Anvisa e o dia de hoje, vários países rejeitaram o semáforo e foram adiante com o modelo chileno. O Uruguai já tem o decreto pronto para publicação. O Peru, idem. E o Canadá já partiu do pressuposto de que os alertas funcionam melhor, com expectativa de fechar uma posição ainda este ano. Israel também adotou um sistema similar, mas, sob pressão do setor privado, adiou a implementação.

Rayner conduziu uma comparação entre os vários modelos. E concluiu que o chileno é aquele que exerce o maior impacto sobre o comportamento do consumidor, enquanto o semáforo fica no pé da lista. O NutriScore ocupa um espaço intermediário, ou seja, não é um sistema ruim, mas, talvez, não seja tão bom quanto o criado pelo país sul-americano. Precisaríamos de mais e mais pesquisas para chegar a uma conclusão. O que falta ser testado em relação ao modelo chileno é o impacto para a saúde pública, o que só poderá ser feito com o passar dos anos.

Já que a história descambou para os eletrodomésticos, vamos apelar a uma metáfora. Você cansou de tomar banho de canequinha e foi atrás de um chuveiro. Chegando à loja, você se deparou com três modelos: o britânico, o chileno e o francês. O preço dos três é o mesmo, de modo que a qualidade será o único fator levado em conta. O fabricante do aparelho britânico gasta dinheiro a rodo com publicidade. No entanto, o sujeito que o inventou já disse que ele não funciona muito bem.

O modelo chileno está no mercado há pouco tempo, mas todo mundo que provou disse que ele esquenta perfeitamente — inclusive o cara que fez o chuveiro britânico. Alguns dos maiores analistas de chuveiros do mundo comprovam a qualidade. A única dúvida é se ele gasta muita energia ou não. Por fim, o chuveiro francês está em fase de testes e parece bom, mas nada do que se viu até aqui indica que ele funcione melhor do que o chileno. Bom, parece que você só tem uma opção.

É, mas acontece que o fabricante do modelo britânico não visita sua casa munido de muito poder de pressão. Se ele visitasse, talvez te dissesse “olha, eu sei que você está convencido de que meu chuveiro não funciona, mas o francês não é tão ruim assim, né?, e eu sou muito amigo dos franceses. Eu não me importaria de vê-lo comprar esse chuveiro”.

Enquanto o chuveiro britânico ficou mal na fita, o chileno ganhou vários adeptos. O Ministério da Saúde do Uruguai fez uma pesquisa on-line na qual 94% declararam apoio a esse sistema.

No Brasil, uma pesquisa Datafolha encomendada em setembro do ano passado pela ACT Promoção da Saúde, que integra a Aliança, mostrou apoio de 88% à colocação de advertências nos rótulos.

Estudos conduzidos pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição em Saúde (Nupens) da USP mostraram que os sinais de advertência teriam maior impacto sobre a compreensão do consumidor, a percepção sobre produtos saudáveis e a decisão de compra.

É mais ou menos o resumo das pesquisas conduzidas no Uruguai por Gastón Ares, do Instituto de Psicologia da Universidade da República. Ele nos contou recentemente que, quando começou a estudar o assunto, alguns anos atrás, a hipótese era de que o semáforo funcionava melhor. Contudo, o surgimento do modelo chileno fez as coisas mudarem.

Nos últimos dois anos, ele concluiu que, sob qualquer prisma que se observe, o sistema de advertências funciona melhor ou igual do que o oponente. Com os octógonos pretos que o país deve adotar em breve, o tempo de resposta das pessoas foi mais rápido, o que é importante quando pensamos em um cenário real de compra: ninguém tem o dia todo para observar produto por produto.

Foi também isso que pautou a decisão no Peru. O Ministério da Saúde prometeu que o governo oficializará o modelo em breve. O ministro Abel Salinas declarou que o sinal de alerta leva o consumidor a uma postura de precaução. Já  o semáforo “não foi suficientemente efetivo nem teve impactos em outros países do mundo nos quais se encontra vigente”.

No Canadá, o Ministério da Saúde abriu consulta pública em fevereiro e espera resolver o caso nos próximos meses. A ministra Ginette Petitpas declarou que o país decidiu partir do modelo chileno devido às evidências de que realmente tem impacto no consumo, o que, por consequência, terá impacto sobre a saúde.

Lá, a indústria terá quatro anos para se adaptar. Inicialmente, 50% dos produtos teriam de usar algum sinal de advertência. “Reconhecemos que os canadenses querem ter acesso a escolhas melhores. Vai resolver tudo? Absolutamente não. Mas queremos dar um passo adiante.”